sábado, dezembro 31, 2011

新年快乐


Lá mais para a frente entra o ano novo chinês, mas eu ainda quero recordar os tempos em que pertencíamos à Europa. Por isso, Bom Ano Novo para todos os que me lêem, os que leram e para os que lerão, e também para todos aqueles que me ouvem (mesmo quando gostariam de não me ouvir). Por fim, para os meus amigos (entre família e pessoas de bem) um desejo de boa navegação nas malhas tormentosas do rio oceano que se nos apresenta bem escondido pela bruma! Bom Ano Novo! Ou: 新年快乐!

terça-feira, dezembro 27, 2011

04. Crónica Diária na Rádio Altitude (3.ª temporada) – Crónica do sorriso da minha Mãe ou de um Natal mais alegre (*)

1. E o que interessa cumpre-se: bebe-se vinho; come-se como se não houvesse amanhã; vive-se intensamente o amor familiar; ama-se o quente da lareira caseira; abraça-se o amor verdadeiro; e olha-se o futuro com auspiciosa ansiedade. No dia seguinte, eis-nos, com umas gorduritas e com uns gramas a mais, a caminho do virar do ano, que é como quem diz: da ingestão de mais uns quantos venenos, para a saúde, tremendamente saborosos! Mas quem se importa com isso no meio deste clima geral de desânimo em que Portugal aterrou e em que, muito provavelmente, todos os que viveram à grande no passado continuarão a viver à grande? Pois… dirão vocês e eu. Rendido às evidências que as mensagens de Natal dos pobres governantes deste país me trazem, a única coisa de que me consigo lembrar é de aproveitar para ir ao hospital este ano e antecipar desde logo as consultas de urgência que de certeza terei de fazer nos próximos anos para curar as minhas laringites e faringites, que no futuro me custarão mais do que um mês de trabalho. Mas, como por vezes sonho que em tempos vivi à grande e gastei todo o dinheiro a comprar vivendas no Algarve, apetece-me, quando caio na realidade, imitar as palavras de Ricardo Araújo Pereira e perguntar ao grande tronco da nação se também tive assento nas negociatas da Sociedade Lusa de Negócios ou se a taluda que o BPN concedeu aos felizes contemplados com empréstimos milionários se aproximaram sequer de mim, pois posso garantir a esse senhor, que é um imenso monte de lenha seca e oca, que, desses negócios tão frutíferos para os seus bolsos, eu só tenho pago dividendos que outros tiveram e não me recordo de ter recebido nada que me tivesse feito ter uma vida menos complicada desde que me conheço. Enfim, não vamos estragar este clima de festividade com palavras tão desagradáveis sobre ladrões e amigos de ladrões que parecem bandos de pardais à solta quando se trata de festas, festanças e inaugurações.

(...)

Famalicão da Serra, 25 de Dezembro de 2011
Daniel António Neto Rocha

(Crónica Radiofónica - Rádio Altitude, no dia 27 de Dezembro de 2011 - disponível em podcast em Altitude.fm)

(*) Excepcionalmente, esta crónica é publicada na íntegra. Talvez porque é Natal.

quinta-feira, dezembro 22, 2011

圣诞节快乐


Este ano desejei um Feliz Natal em chinês porque já somos quase trabalhadores chineses: explorados, abusados e orgulhosamente calados!

terça-feira, dezembro 20, 2011

O grande disparate ou «Nós, as "gorduras"»

Hoje, imito o Mestre Poppe e dou a conhecer uma oportuna visão do Portugal moderno e evoluído. Mestre Manuel António Pina no seu melhor!

Primeiro foram os jovens desempregados a receber do secretário de Estado da Juventude guia de marcha para fora de Portugal; agora coube a vez aos professores, pela voz do próprio primeiro-ministro.

No caso dos professores, a coisa passa-se assim: o ministro Crato varre-os das escolas; depois, Passos Coelho aponta-lhes a porta de saída do país: emigrem, porque Angola e Brasil "têm uma grande necessidade (...) de mão-de-obra qualificada". Portugal (que é um dos países da Europa com mais baixos níveis de escolarização, segundo o Relatório do Desenvolvimento Humano de 2011, divulgado no mês passado pelo PNUD) não tem, como se sabe, necessidade de mão-de-obra qualificada.

E, como muito menos tem necessidade de mão-de-obra "desqualificada", ninguém se surpreenda se um dia destes vir o secretário de Estado do Emprego e o novo presidente do Instituto do Emprego e Formação (?) Profissional a mandar embora quem tiver como habilitações só o ensino básico; o ministro da Segurança Social a pôr na rua pensionistas e idosos (para que precisa Portugal de pensionistas e idosos, que apenas dão despesa?); o ministro da Saúde a dizer aos doentes que vão morrer longe, em países sem listas de espera e com taxas moderadoras em conta; o da Defesa a aconselhar os militares a desertar e ir para sítios onde haja guerras; e por aí adiante...

Percebe-se finalmente o que são as tais "gorduras do Estado": são os portugueses.


(Retirado do Jornal de Notícias)

quinta-feira, dezembro 15, 2011

"Este país não é para jovens", de Manuel António Pina

Manuel Poppe tem disponibilizado no seu blog, Sobre o Risco, algumas das crónicas de Manuel António Pina, Hoje, apresenta-nos mais uma dessas crónicas certeiras e assustadoramente reais. Cito um parágrafo e deixo aqui a ligação para a crónica integral.

(...) Como sobreviver porém, física e moralmente, à guerra que se abate hoje sobre os jovens, condenados sem fim à vista à precariedade, à humilhação e à desesperança, impedidos de constituir família ou de ter vida própria? E uma boa parte da responsabilidade política por isso é justamente da minha geração, sobretudo daqueles que, logo que puderam, se meteram na cama com o inimigo dos seus 20 anos."

A isto, some-se a chantagem e a pressão por parte dos patrões ditadores, que apontam "o olho da rua" a quem não faz o que eles mandam, e os milhares de recibos verdes que não contam para os números do desemprego. País? Isto é uma prisão!

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Li: Teorias, de manuel a. domingos


Ainda num período de "ressaca" depois da leitura do livro Teorias, faço apenas um pequeno comentário de extremo contentamento. Mais do que lirismo, manuel a. domingos aposta, e muito bem, na espontânea fluidez das ideias, mesmo quando elas parecem incompatíveis com o fazer poesia. Um exemplo perfeito disso é o poema com que encerra o livro: "O poeta sentado/ observa/ o seu umbigo// Vê como/ é perfeito// O poeta retira/ do umbigo/ o cotão/ que se acumula/ (...)". É neste tom, irónico e consciente, que ele constrói uma dialéctica interessantíssima entre a poesia, a teoria da literatura e a vida (a real e quotidiana).
Uma pequena obra, edição de autor e limitada, que merece ser lida e usufruída por quem gosta de poesia.

P.S. - Este livro pode ser encomendado ao autor pelo endereço electrónico: manueldomingos@gmail.com

terça-feira, dezembro 13, 2011

Eu e a Revista Praça Velha n.º 30

Neste número da revista Praça Velha, colaboro com poemas e com uma recensão crítica ao livro vencedor da 1.ª edição do Prémio Manuel António Pina, em 2010: A Divina Pestilência, de João Rasteiro. Leia e dê a sua opinião!


"No próximo dia 15 de Dezembro, Quinta-feira, na Sala Tempo e Poesia da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, pelas 18h00 decorrerá o lançamento do nº 30 da Revista Cultural Praça Velha e dos números 100 ao 104 da Colecção “O Fio da Memória”.
O 30º número conta com colaborações de Aires Dinis, António Morgado, Augusto Moutinho Borges, Carlos d´Abreu e Emilio Rivas Calvo, Francisco Manso, Franklin Braga, Hermínio Ferraz, Jesué Pinharanda Gomes, José d´Encarnação, José Luís Lima Garcia e Roberto Merino. A Grande Entrevista à Pintora Evelina Coelho é conduzida por Américo Rodrigues. Poemas e Contos conta com a participação de Daniel Rocha, João Esteves Pinto e José Ferraz Alçada. Portfolio é da responsabilidade de Pedro Carvalho. Recensões críticas de livros e Cd’s inclui colaborações de António Morgado, Carlos Canhoto, Cecília Falcão, Cristina Fernandes, Daniel Rocha, Helena Santana, Jorge Torres, José António Afonso Rodrigues, José Pires da Cruz, José Pires Manso, Manuel Abrantes Domingos, Manuel Sabino Perestrelo, Maria Antonieta Garcia e Rosário Santana. Este número termina com a já habitual Súmula de Actividades Culturais.
A Colecção “O Fio da Memória”, uma edição da Câmara Municipal da Guarda, cujo objectivo é divulgar e não deixar cair no esquecimento as tradições, as memórias e a Memória… chegou ao centésimo caderno! Iniciada em 2003 a colecção mantém uma periodicidade semestral que, de cinco em cinco cadernos, vai avolumando o arquivo de memórias do Concelho! Estes números são dedicados aos seguintes temas: N.º 100 – “Andarilhando pela Memória” de Ana Maria Barbosa e Ana Leonor Pereira da Silva; N.º 101 - “Azeite do Vale da Teixeira - Ouro líquido da Ramela”, de Vanda Sá Rodrigues e Joana Sá Rodrigues; N.º 102 - “Do lenticão ao LSD”, de Américo Rodrigues; N.º 103 – “Memórias dos divertimentos e jogos das crianças, no Centro Histórico da Guarda, nos anos 50 e 60 do século XX”, de Mário Cameira Serra e N.º 104 – “Aldeia Escolhas”, de Ana Couto." (Retirado do blog do NAC-CMG.)

03. Crónica Diária na Rádio Altitude (3.ª temporada) – Crónica de um Natal mais manso ou dos presentinhos cor de laranja

1. Espero que os vidros aí de casa ou do local onde o caro ouvinte se encontra não se partam. É que o meu filhote exige-me que esta crónica tenha uma pequena banda sonora introdutória alusiva à época natalina. Aí vai: “É Natal, é Natal, tudo tem mais luz!” Gostaram? Também é verdade que aqui pela Guarda não seguimos os conselhos desta pequena balada de Natal, porque o orçamento municipal há muito que está “às escuras”, mas, como sabiamente me tem recordado o meu pequeno herdeiro, o que interessa é a sinceridade e o puro amor da verdadeira família. Tudo o resto são fogo de vista, chantagem e meras jogadas políticas, pelos costumeiros vaiadores da assembleia popular que gostam de receber prendinhas de onde calhar.

(...)

Guarda, 12 de Dezembro de 2011
Daniel António Neto Rocha

(Excerto da Crónica Radiofónica - Rádio Altitude, do dia 13 de Dezembro de 2011 - disponível em podcast em Altitude.fm)

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Crónica Bombeiros.pt: Mas isto Liga ou desLiga?

1. Talvez tudo não passe de cansaço e de tristeza pela forma como são tratados os homens e mulheres que todos os dias se esquecem da importância da família. Talvez, e começo a não ter dúvidas, tudo se deva ao simples facto de não serem o esforço, a dedicação e o conhecimento (fruto dos dois factores anteriores) os principais responsáveis pelos avanços ou recuos do voluntariado em Portugal. O que sei é que nos encontramos num beco sem saída e nada disso se deve aos “subordinados”, mas, sim, aos grandes dirigentes (entre presidentes e comandantes) das corporações de bombeiros voluntários. “Senhores, estão em dificuldades? Parabéns pelo excelente trabalho! Agora que a “vaca” foi sugada até à exaustão, o que vão fazer? Continuar a morder os ossos?”

(...)



Guarda, 05 de Dezembro de 2011
Daniel António Neto Rocha

(Texto publicado e disponibilizado no Portal Bombeiros.pt a partir das 00h00m do dia 07 de Dezembro de 2011)

terça-feira, dezembro 06, 2011

Artemtrânsito

Tenho o prazer e a honra de estar associado a esta iniciativa que é extremamente oportuna e criativa. Com um pequeno investimento podemos ter nas mãos um pequeno tesouro. Até pode servir como prenda de Natal (a juntar às imensas sugestões que o Américo já fez no Café Mondego)! Não para enriquecer materialmente, mas sim culturalmente! Visitem e comprem, a cultura agradece!



"O Teatro Municipal da Guarda promove no Café Concerto, de 9 a 11 de Dezembro (de Sexta a Domingo), a iniciativa “ARTEMTRÂNSITO”, com o objectivo de tornar a arte acessível a todos. A ideia é simples: o TMG pediu a vários artistas trabalhos em formato A5, que serão expostos no CC e vendidos por sorteio, ao preço simbólico de 10€. A
cada compra corresponderá, aleatoriamente, uma obra. Foram muitos os artistas e escritores que quiseram associar-se a esta iniciativa: João Currais, Jorge dos Reis, Tiago Rodrigues, José Monteiro, Daniel Rocha, Manuel António Pina, José Vieira, José Teixeira, Bernardete Fernandes, Maria Lino, Barbara Assis Pacheco, Bartolomé Ferrando, Pedro Figueiredo, José Oliveira, Alda Nobre, José Alçada e Manuel Poppe, entre outros."

segunda-feira, dezembro 05, 2011

Pensalamentos #26


Peço liberdade!
Tudo o que peço é liberdade
fonética e grafemática
para a inconsciente volúpia
dos meus sentidos desatentos.

Peço liberdade
para transcrever fonologicamente
a palavra transgressão!

quinta-feira, dezembro 01, 2011

02. Crónica Diária na Rádio Altitude (3.ª temporada) – Crónica do desempregado ou dos empreendedores do assento

1. Mestre de obras! Gostam? Este é, talvez, o meu novo título no feérico mundo do admirável país das maravilhas e do trabalho precário, onde se trabalha de borla a mando de um coelho saltitão que, já se provou, não é nada atrasado mas, sim, um grande aldrabão. Através de uma complexa teoria de metamorfose, que transforma competências básicas em competências mui avançadas, já fui relações públicas, monitor, tarefeiro de múltiplas tarefas (passe a redundância), explicador, formador, professor e mais, muito mais! Agora, quando o mundo do desemprego, no sentido mais estrito da palavra, também decidiu recair sobre mim, deixando de me alojar no Inferno a recibos verdes, e me faz calcorrear em busca do próximo trabalho, decidi ser empreendedor e apostar numa área para a qual não tenho qualquer formação ou sequer conhecimentos. Bem, bem vistas as coisas é o mesmo que fazem tantos políticos da nossa praça, que são nomeados para cargos muito nobres, sendo que a única coisa que vão acabar por fazer é empatar quem lá trabalha e encher de despesas o contribuinte. Enfim, todos conhecemos bons exemplos destes empreendedores do assento.

(...)

Guarda, 27 de Novembro de 2011
Daniel António Neto Rocha

(Excerto da Crónica Radiofónica - Rádio Altitude, do dia 29 de Novembro de 2011 - disponível em podcast em Altitude.fm)

sábado, novembro 26, 2011

Pensalamentos #25


Faço bonitas dobragens com as palavras
e até recorto as sílabas com afeição,
mas continuo à espera que passe
o verbo que signifique "ganha pão".

quinta-feira, novembro 24, 2011

01. Crónica Diária na Rádio Altitude (3.ª temporada) – Crónica do que a família em si guarda ou dos “bôchos” de duas patas

1. Já é um hábito antigo, gozar com a nossa ilustre cidade. Quem foi o guardense (ou egitaniense, se for um acérrimo defensor da Igreja!) que não foi ainda enxovalhado por meia dúzia de gente ignorante e, possivelmente, imbecil que diz que um dos cinco efes que nos singularizam é o do adjectivo “Feia”? Pois bem, o importante é estarmos sempre bem armados com duas ou três palavras “de estalo” que encostem os invejosos a um qualquer canto para os lados do cano de esgoto do Kadhafi! Que palavras, meu pobre santinho, acharás merecedoras de uma medalha? Será a nossa altaneira cidade “feliz”? Nestes últimos tempos não, pois o desemprego não pára de aumentar. Terá o granito destas paredes uma atitude de “frescura”? Não me parece, já que tudo aquilo que traz reconhecimento à cidade e que é fruto do labor honesto dos homens é para acabar e depressa. Humm!… O que poderá ser… Sim, já sei, o frio e o escuro da cidade nos dias de Inverno fazem com que tudo se resuma a uma única palavra: “família”!

(...)


Guarda, 25 de Outubro de 2011
Daniel António Neto Rocha

(Excerto da Crónica Radiofónica - Rádio Altitude, do dia 15 de Novembro de 2011 - disponível em podcast em Altitude.fm)

terça-feira, novembro 22, 2011

Crónica Diária: decisão

Dada a imensa procura que a Crónica de dia 15 de Novembro teve através do Google, irei publicar excertos dessa mesma crónica assim que consiga. O critério de escolha de excertos será, depois, seguido nas crónicas posteriores. Serão sempre publicadas cerca de cento e cinquenta palavras que correspondem, mais ou menos, à parte introdutória da crónica.

Como sabem, podem ouvi-la no sítio da Rádio Altitude como podcast, basta procurarem pelo meu nome e pela data de emissão.

quarta-feira, novembro 16, 2011

Pensalamentos #24


Os espaços vazios das sílabas
despertam consciências.
O silêncio apura os sentidos
e traduz a beleza da palavra.

terça-feira, novembro 15, 2011

Pensalamentos Emprestados #6

"No entanto, Tomás tinha noção de que havia situações em que a crença sem dados suficientes era inevitável. Na amizade, por exemplo. Para se ser amigo de uma pessoa é preciso acreditar nela, crer que ela é digna de confiança. Claro que essa fé se revela muitas vezes infundada. (...)
Mas qual a alternativa? Não deveria acreditar em ninguém até ter informação suficiente para estar certo que essa pessoa era digna de confiança? Então como faria amizades? Iria submeter cada amigo potencial a um rigoroso inquérito prévio? Apresentar-lhe-ia um questionário para preencher? Iria investigar toda a sua história em pormenor? Isso não fazia sentido! Havia situações na vida em que era preciso acreditar sem informação suficiente. A informação viria depois, claro. (...) As informações posteriores confirmariam que essa crença tinha fundamento. Mas o primeiro passo era sempre a crença. Ou, para usar outra palavra, a fé."


(José Rodrigues dos Santos, O Último Segredo)


O novo romance histórico-policial de José Rodrigues dos Santos é um manancial de informação bíblica e de discussão teológica. Importou-me, para este Pensalamento Emprestado, a reflexão final do personagem principal (uma espécie de Indiana Jones) sobre a confiança que concedemos àqueles que temos como amigos. Tomás de Noronha, fazendo um paralelo com a crença religiosa, questiona a forma como nos relacionamos com os outros, nossos supostos amigos, sem termos qualquer tipo de certeza que a nossa intenção e a deles é a mesma. A conclusão é simples e a sabedoria popular já lhe dá resposta há muito tempo: Só depois de aberta a melancia é que sabemos se é doce!

segunda-feira, novembro 14, 2011

Crónica Diária: eu e o Mestre Garrett

A partir de amanhã (dia 15 de Novembro) e até ao início do Verão de 2012 terei o prazer de voltar às crónicas radiofónicas na Rádio Altitude. Tenho colocado o texto de todas as crónicas (desde 2010) à disposição dos leitores interessados em as lerem na versão escrita. Ainda não sei se esta temporada será igual, pois é meu propósito lançar em 2012 a compilação de todas as crónicas escritas para a participação cívica na Rádio Altitude (e outras crónicas dispersas por outros meios de comunicação) em formato livro. Vamos ver... ou ouvir!

De 15 em 15 dias ouve-me! Tenho algo a dizer? Sim! E prometo que "de quanto vir e ouvir, de quanto pensar e sentir se há-de fazer crónica." Não percas amanhã a minha reflexão sobre a típica família guardense. Por volta das 9h15m, com repetição às 17h15m. Terça-feira sim, Terça-feira não, a partir de amanhã!

quinta-feira, novembro 10, 2011

Medidas (algumas politicamente incorrectas) para equilibrar as contas #2

Ora bem, uma das medidas essenciais para que as contas públicas sejam, de facto, equilibradas é impedir a migração dos ex detentores de cargos governativos para empresas, fóruns, grupos, e afins. Isto não só resolvia o problema da migração de todo o séquito (chefes de gabinete, assessores, técnicos, secretárias, motoristas, amigos dos copos, amigas da noite, etc.), como potenciava um trabalho sério e profissional de um qualquer capacitado para gerir empresas. E não estou a falar de cães de fila, mas sim de gente capaz e que anda a arranjar bilhetes para fora do país ou está em equipas de investigação de Universidades.

quarta-feira, novembro 09, 2011

Leituras


Algumas das leituras destes últimos meses (Julho a Outubro).















Pensalamentos #23


A sociedade reflecte-se nos gestos
que o espelho pútrido mais destaca.
Assim, porque razão hei-de pensar que
o desaparecimento voluntário de quem
nos rodeou é uma mera questão de tempo?

segunda-feira, novembro 07, 2011

Este país é uma anedota #3 ou Entre pret+o e put+a (eu cá não quero ser nem racista nem mal educado)

Depois de todos termos ficado chocados com a revelação de que Alan (jogador do Sporting de Braga) terá sido, pelo menos ele diz que sim, chamado de preto e negro pelo Javi (do Benfica), vamos ficar todos mais reconfortados por saber que a Liga se prepara para abrir um inquérito ao jogador do Benfica que "tinha a mão à frente da boca" quando segregou o jogador do Braga. Este ainda acrescentou que este jogador tinha de ter cuidado, pois o capitão e o defesa esquerdo do Benfica são pretos, assim como 70% da massa associativa! A resposta de Javi, já que estamos numa onda de ficcionalidade, a este informado jogador do Braga será "Ele chamou-me filho da puta!" e tem de ter muito cuidado pois na equipa dele... (Já estão a ver o que eu não me atrevo a dizer!)

Digam lá o que disserem, cá para mim o Alan conseguiu ler a agressão racista nos lábios do Javi enquanto se apagavam as luzes do estádio e o médio do Benfica se divertia a tomar banhos de água fria!

Continuam as "manobretas" no futebol português!

Pensalamentos #22


Nem há nenhuma ilusão.
Todas as realidades falsas
assumiram os princípios activos
de paracetamóis da psiquê.

A irrealidade transformou-se
num mar de ameaça aos
dogs de serviços administrativos.
A ilusão resiste amordaçada.


sábado, novembro 05, 2011

Pensalamentos #21

A um suspiro de Cronos

As idades dos metais brilhantes
das épicas saudações guerreiras
relembram a ousadia da honra e
o medo de se ser homem.

quinta-feira, novembro 03, 2011

Repentes #3 - Carta de Candidatura


Homem, emancipado de pais e de quaisquer cegos laços religiosos ou políticos, vem, por este meio, apresentar a sua candidatura, uma vez que se revê nos traços requeridos para líder de qualquer empreendimento terrestre ou divino. Tem apenas o vício de ainda acreditar nos tradicionais valores da honra e do respeito pelos outros, sabendo, no entanto, marcar a sua opinião através de argumentos capazes de convencer os seus semelhantes e os seus contrários, mesmo que estes sejam crentes da causa das galinhas com dentes. Não vê as dificuldades como barreiras mas sim como escadas a pique para novos desafios, bem mais aliciantes e mais recompensadores. Assume as suas decisões e palavras sem qualquer pavor, padecendo, de quando em vez, de perseguições e de repúdios da parte de fracos sem carácter! Sabe que lá à frente, para onde anda, está a verdade e só ela lhe interessa. Capaz de integrar equipas, não deixa de se assumir como líder quando vê que não se vai a lado nenhum ou que a inércia assume proporções de estupidez colectiva. É politicamente incorrecto quando para isso apontam as circunstâncias, mas, na generalidade, pauta os seus tempos de intervenção por uma atitude diplomata e serena.
Eis, eu!

P.S. - Sou também nomeável!

quarta-feira, novembro 02, 2011

Pensalamentos Emprestados #5


"Em Portugal não há (toda a gente sabe) corrupção nem desonestidade. (...) E tanto que o Governo acaba de extinguir, por decreto, a Alta Autoridade contra a Corrupção."


(Manuel António Pina, "O método português", 9-9-1992)


Em 1992, o Governo acabou por dar uma Via Verde para o saque do Estado por parte dos espertalhões que hoje vivem com reformas milionárias e com mais valias adquiridas enquanto cometiam esse mesmo saque. Manuel António Pina, na crónica intitulada: "O método português", dava conta disso. Ao que parece o Jardim, cheio de encantos na Madeira, já era um autêntico pirata das contas públicas e tinha uma Assembleia Regional que o acompanhava. Daí que estava em vias de haver uma condenação. Mas do continente o novel Governo, empossado a 31 de Outubro do ano transacto, decide resolver os problemas de corrupção do país e tudo termina como ainda hoje são resolvidos os problemas da Madeira. Não sabem como? O senhor Governador diz: "O Tribunal de Contas agora vai ter que meter a viola no saco!"
Crónica de Manuel António Pina a reler hoje quando o tema da corrupção de anteriores governantes deste país pode vir a ter direito a uma nova e necessária amnistia governamental!


Pensalamentos #20


E num salto existencial de clarividência
obténs a resposta a duas questões simples:
sim, és apátrida junto dos teus;
não, não te querem, só se aproveitam!

Repentes #2

Só hoje consegui respirar fundo e falar deste repente que me deu. Não, não é assunto de vida ou de morte! Ou melhor, nem sei.
Depois de ouvir, mil vezes por minuto, os louvores a uma atitude de poupança, Paulo Portas decidiu vir aconselhar (?) os portugueses a aceitarem uma qualquer lição, aula, formação ou o que for, de poupança desde tenra idade!
Para começar, será escusado dizer que qualquer um dos elementos partidários deste país estarão fora da órbita de docentes possíveis para aquele mini-curso. Escusado será também afirmar que concordo com esta sugestão, pois é preciso que o povo saiba que é pobre e que pobre será até ao fim do mundo ou arredores!
Não sei não, mas qualquer dia voltaremos a ouvir que a governação do país não se discute e que devemos ser fortes e defender "Deus, a pátria e a família".
Para que nos andamos a preocupar com o Governo do país se ele está tão bem entregue?

segunda-feira, outubro 31, 2011

Pensalamentos #19

Tartamudeio quando as velhas amizades
se aproximam. A afirmação das obrigações
e as escuras trementes recordações
abrigam as esquecidas idades.

domingo, outubro 23, 2011

Pensalamentos #18


As paredes metem medo.
O fogo apagado da cruz
do caminho atrai os lobos
e amedronta os cordeiros.

sexta-feira, outubro 21, 2011

Crónica Bombeiros.pt: A gramática de um tempo

1. Não foi assim há tanto tempo, se olharmos para os passos que outros já deram neste mundo de que todos gostamos demasiado para o abandonarmos de ânimo leve. O que é certo é que são já 12 anos de uma vida entregue a uma causa que mudou demasiado para se continuar a acreditar nela.

(...)

Guarda, 04 de Outubro de 2011
Daniel António Neto Rocha

(Texto publicado e disponibilizado no Portal Bombeiros.pt a partir das 00h00m do dia 21 de Outubro de 2011)

sexta-feira, outubro 14, 2011

Medidas (algumas politicamente incorrectas) para equilibrar as contas #1

Não sou economista e não tenho pretensão em sê-lo (conforme já tive oportunidade de escrever), mas tenho algumas dicas para reactivar este país. Cá vai a primeira:

Pensão máxima no valor de 2.000 euros e mínima no valor de 1.000 euros. Aplicada a todos os pensionistas (mesmo os que recebem 18.000 euros) a partir de Janeiro de 2012. Com o corte efectivo de um número incalculável de ajuntamentos de pensões com origem no Estado.

Se alguém souber, digam-me (porque não sei!) em quanto poderia ficar esta medida. Mas sem dados percentuais, por favor!

quarta-feira, outubro 12, 2011

Este país é uma anedota #2

É impressionante como a justiça deste país actua! Não é que vão agora julgar e processar uns poucos de jogadores de futebol que agrediram dois seguranças que estavam a trabalhar? É impressionante! Onde está o respeito pela total impunidade que rege, neste país, os contratos de trabalho das super-estrelas futebolísticas e dos seus excelsos representantes? Esses dois seguranças da treta, que deviam ter vergonha de estar no mesmo espaço dos meninos ricos e que deviam ter vergonha de ganhar a miséria que ganham, nem sequer deviam ter apresentado queixa, pois assim, talvez, tudo passasse como habitualmente se passa: "os ricos, bonitos e que jogam bem" (em qualquer quadrante da "xuxalight" portuguesa) estão imunes ao vírus da aplicação da justiça e do respeito pelas leis do estado!

Em Portugal não pode haver uma só lei soberana porque vai sempre ser considerada defensiva de uns e opressiva de outros! Raios!, já me tinham dito que era difícil acusar alguém negligente, mas nunca me tinham dito que era impossível que alguém realmente culpado fosse condenado.

Como dizia o outro: "Seguranças para enfardar há muitos, senhor Juiz!"

sábado, outubro 08, 2011

Sumo da vida silabado

Hoje o meu filhote começou a ensaiar as primeiras palavras. Foram monossílabos pungentes capazes de fazer com que o mundo parasse por segundos. Mamã e Papá! Emocionou-me, o fedelho!

quarta-feira, outubro 05, 2011

Repentes #1

"Provavelmente, os maiores sacrifícios que esta geração teve que fazer." Esta é uma das frases destacadas pelos jornais naquilo que foi o discurso de Cavaco Silva. AS perguntaS que eu coloco são: poderemos falar em sacrifícios de uma geração? Qual é a geração que está, digamos, enrascada? São todas as pessoas desse geração? Ou há os gordos lambe-botas e lambe-pilas que escapam, através de trafulhices?

Quando Cavaco enfatiza que "devemos a todo o custo" escapar a um segundo pedido de empréstimo, a todo o custo significa: passar fome? Ou morrer à fome? Ver os filhos com fome? Ou matar os filhos para não terem fome? Deixar de pagar contas e ir para a prisão? Ou roubar para poder pagar contas e ir parar à prisão?

Enfim, contas que a República apresenta para continuar a sustentar as gordurinhas de quem mama nas suas excelsas e consideráveis mamocas!

terça-feira, setembro 20, 2011

Este país é uma anedota #1

Depois de se saber da existência de um buraco negro financeiro na Madeira, Alberto João Jardim ligou para os camaradas de lides políticas do pós 25 de Abril e disse-lhes:
"Então? Quando vinham passar uns dias e não pagavam, pensavam que a factura ia para quem? Oh! meus amigos, eu bem tentei que a minha banana tapasse o buraco, mas a taxa de exportação é fraca!"

sábado, setembro 17, 2011

Pensalamentos #17


Continuo, incessantemente,
o meu trabalho de supererogação
na identificação das bestas sadias
que infectam a sociedade necessária.


quinta-feira, setembro 15, 2011

Deputados andam a copiar, sem citar fontes, as ideias deste blog

Enquanto lia o "Público" de hoje (15 de Setembro de 2011), dei-me conta da falta de vergonha de um deputado da bancada Socialista ao citar a ideia criada no post com o nome Cartão Pedinte para atacar a falta de vergonha do Governo da coligação sem vergonha Social Democrata e sem vergonha Democrata Cristã.
Não é que os direitos de autor sejam muito bem pagos, mas a honestidade intelectual deve ser respeitada por todos aqueles que representam os cidadãos e por todos aqueles que não foram eleitos para roubar as ideias aos cidadãos.
Era só o que faltava! Pior do que isto, e falando da minha profissão, só se alguém se aproveitasse dos resultados positivos de um professor, que já não está numa escola e não se pode defender, para promover e valorizar outro professor. Isto é que era uma pouca vergonha das grandes.
Mas vão lá, leiam na página 6 do "Público" a notícia (ou, se quiserem só perceber o teor da notícia, mesmo aqui, na TVI) e depois vão ver a data do post deste blog. Façam lá uma leitura atenta e genuína, e digam-me se não andam os deputados a usar ideias deste que aqui escrevinha.

Deputados, deputados...

quarta-feira, setembro 14, 2011

Pensalamentos Emprestados #4

"Desgraçadamente a vida partidária em Portugal gira ainda em volta da educação monárquica. Quem dentro dos partidos quiser servir ideais, obriga-se principalmente a servir os homens."

Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra


Não recebo muitas ofertas de livros pelo correio (mas gostava!), mas não deve ser só por eu ter mau feitio. Talvez as pessoas não soubessem deste meu gosto.

Esta citação retirei-a de uma separata que me foi enviada por um amigo, que é um excelente investigador. É uma separata de um artigo que vem na revista Biblos, número VIII (2010), dedicada à República. Chama-se "Jaime Cortesão: o escritor combatente na I Guerra Mundial" e foi escrito pelo Professor Jorge Pais de Sousa. Se puderem, leiam!

"É antipedagógico!": gritam alguns algures


(Reportagem da TVI, aqui colocada com todo o respeito pelos direitos de autor.)

Conheço uns tipos que ficariam com os "cabelos em pé" por causa desta tua pedagogia, Clarisse!

Onde já se viu, professores de Português a usarem e a permitirem que os alunos tenham os computadores ligados na sala de aula!? Impressionante! Não sabes que os professores de Português devem ensinar a ler e a escrever!?

Ah!, Clarisse, Clarisse!

Já agora, beijos para a família e deixa-te lá de modernices!

terça-feira, setembro 13, 2011

Cartão Pedinte




Depois de me dar conta dos sucessivos e sem conta descontos que este Governo anda a dar aos pobres e desfavorecidos, decidi lançar esta ideia: vamos fazer um Cartão Pedinte, pessoal e intransmissível.

Só há vantagens:

1 - para o Governo: os pobres que são pobres ficam a fazer parte de uma lista onde não entra mais ninguém, logo podendo as taxas ser mais convenientemente aplicadas a quem não fizer parte do grupo;
2 - para a oposição: podem socorrer-se deste grupo para fazerem manifestações a pedir mais direitos, pois são paupérrimos (os pobres, não a oposição!);
3 - para o pobre: sempre é mais um cartão de desconto a juntar aos dos hipermercados, das sapatarias, das farmácias, dos cafés, dos clubes, das gasolineiras, etc. (já não me lembro de mais!);
4 - empresas e instituições que beneficiam os pobres: ficam com uma carteira privilegiada de clientes, podendo manter uma receita, digamos, interessante.


Problemas:

1 - (único): os que são consideravelmente ricos (tipo o pobre do Amorim!) terão dificuldade em provar que são ricos, pois pelos vistos a sua declaração de IRS é do tamanho de um desempregado.


O grafismo do cartão pode basear-se na imagem que roubei não sei onde e que se encontra aí em cima.

Com o Alto-patrocínio de Suas Ex.as os Presidentes da República (todos desde o 25 de Abril).

Os patrocinadores oficiais deste Cartão de Pedinte, discriminados no próprio, serão: o Governo (qualquer um deles desde o 25 de Abril); a Assembleia da República; os Partidos Políticos; e todos os outros orgãos (não sexuais!) de teor e de nomeação política do país.

Quem apoia: GALP, REN, EDP, TAP, BRISA, SCUT, CP, METRO, CARRIS, PT e muitas outras.


Este Cartão Pedinte facilitará a vida a todas as entidades que tenham de fazer desconto aos pobres e permitirá que os seus possuidores não continuem a tirar fotocópias e a pagar autenticações e a pagar declarações, certidões, documentações, e pagar mais viagens para arranjar papéis que originem outros papéis que evitem ter de comprar outros papéis que... PUTA que pariu os papéis e mais papéis! (Percebeu-se a ideia?)

Pois bem, importante, importante é o slogan, para que a malta se sinta bem com o seu Cartão Pedinte e para que o utilize com dignidade. A minha proposta é: um homem esfarrapado e esfomeado mostra ostensivamente o Cartão Pedinte e diz (eis o slogan...) "Hoje já somos muitos, amanhã seremos mais!", e depois mostra um sorriso aos bocados. Bom, não é?



P.S. - Digam ao Gaspacho das Finanças que pode começar a ser austero (e a dizê-lo aos Comparsas Europeus) com a sua própria conta, pois a minha já não dá mais nada.

Crónica: Os incontornáveis caminhos do destino

Escrevo à distância fugaz de uma lágrima. Escrevo à memória de alguém que me ouve o pensamento e me dirige a mente para rumos incertos, mas reais. Escrevo, enfim, na suspeição de um ouvido atento às minhas preces e às minhas emoções. Escrevo-lhe e, ao mesmo tempo, partilho a minha fome de uma presença que me foi roubada no percorrer dos incontornáveis caminhos do destino.

Este ofício de escrever confunde-se, não raras vezes, com o ofício de viver e, assim, rouba-nos (muitas vezes) a percepção da realidade escondida atrás da ilusão criada no acto de fazer ficção. Não é uma ilusão qualquer. Aquela de que eu falo, é uma ilusão que se procura transformar na própria realidade e, daí, matar as dores criadas na vivência dessa mesma realidade. Eu confundi, até há bem pouco tempo, estes dois mundos tão distantes. Agora, que despertei, o mundo é diferente, a realidade é outra e é preciso recomeçar.

(...)


Famalicão da Serra, 12 de Setembro de 2007
Daniel António Neto Rocha

(Crónica publicada no Portal Bombeiros.pt e disponível online desde o dia 13 ao dia 28 de Setembro de 2007)

P.S. - Há quatro anos iniciei uma nova demanda. Precisamente nesta altura. Como ainda não tinha esta crónica no blog, aqui a coloco agora. O professor Xavier Viegas deu-me a honra de a ter publicada no seu livro Cercados pelo fogo 2.

domingo, setembro 11, 2011

Vi: Tommy (1975), de Ken Russell


Tommy é um filme, que se baseia na Ópera Rock escrita pelo grupo The Who em 1969, marcadamente crítico da sociedade dos anos 70. Para além desta visão de Ken Russell ser uma sátira à vida consumista dessa época, é ainda um imenso jogo de metáforas com ligação religiosa e social, pretendendo mostrar todos os vícios e crenças que então (e agora?) impregnavam a sociedade. É ainda uma tentativa, aproveitando a ascensão e aparecimento do filme Jesus Christ Superstar (baseado na Ópera Rock de Andrew Lloid Webber), de parodiar alguns dos aspectos mais marcantes deste filme (por exemplo, transforma a via sacra num continuo de maus tratos sobre um deficiente). O que este Tommy nos apresenta é um dedo acusador sobre uma sociedade crente no poder dos mitos recém-chegados, apresentados através de um ritmo rápido e constante (note-se a influência que o Rock tem na divulgação de sentidos) e de um apelo à imagem estranha e, por vezes, surreal. Não é um filme de fácil descodificação (até pela presença de um conjunto de signos e símbolos que emergem vindos de áreas tão distintas como a economia e a religião, a pintura e os direitos humanos, a música e a literatura, etc.), mas o que é estranho tende a entranhar-se mais facilmente e este Tommy não deixa ninguém indiferente pela incrível diferença em apresentar discussões culturais e sociais indispensáveis na época (e ainda hoje!), utilizando para isso um tipo de música que desde sempre esteve ligado ao mundo do álcool e das drogas. Justiça divina? Talvez, o grande triunfo deste filme é conseguir, através da explanação imagética dos problemas, que a crítica feroz a essas mesmas questões seja feita perante a constatação do ridículo.

O filme apresenta uma espécie de circularidade (note-se que o início é o aparecimento, junto ao sol, do pai de Tommy e que o final mostra o filho a assumir a posição de onde se partira para o desenvolvimento da acção) que pretenderá significar, muito sumariamente, o processo biológico do crescimento físico e mental do homem. Este início é surdo, ou melhor, não tem palavras, pois as palavras necessitam de trabalho e de uma comunicação efectiva (não necessária, segundo a intenção comunicativa do realizador, a uma relação reprodutiva). Note-se, ao nível da mera curiosidade, que o pai biológico de Tommy não usa uma única palavra. Não lhe ouvimos a voz e, o que é certo, não precisamos de a ouvir. O que significa esta mudez paterna? Veja-se a tradição religiosa. O pai (Deus) não se ouve. Já o ouviram? Apenas seguimos os seus ensinamentos (exemplares e puros), não necessitando de uma confirmação oral de forma a entendê-lo e a segui-lo. É isso que acontece em Tommy. A figura paterna é a imagem da dedicação e da defesa da família (vai para a guerra para defender o filho que há-de vir). Por lá fica, supostamente, morto. Após a notícia do desaparecimento da figura masculina (associada a Deus?), surgem finalmente as palavras associadas ao nascimento de Tommy. Reconhece-se neste passo toda a simbologia do nascimento de um predestinado. Ele é o foco da atenção. Ele é o salvador. Ele é o desejado.
Tommy é já um rapazinho (com cerca de 5 anos?) quando acontece a morte, perante os seus olhos, do seu pai biológico. Passo a explicar: a mãe e o filho seguem com a vida depois de pensarem que o pai está morto, mas afinal de contas está vivo; no dia em que regressa a casa, a mãe já se encontra a viver com outro homem; Bernie (pai adoptivo), perante a entrada imprevisível do pai no quarto, mata-o; Tommy assiste e entra em choque, começando a viver num mundo só dele onde o pai é o “seu Deus”. A partir deste momento entramos numa espiral de acontecimentos onde se critica o desajuste de tratamento daqueles que são diferentes (deficientes). A evolução é natural e quando damos por nós estamos perante um Tommy crescido (apresenta-se perante nós Roger Daltrey, vocalista do grupo The Who) que inicia a aprendizagem, por vezes, muito cruel da vida (qual via sacra): surge a busca de soluções através de falsos ídolos (a cura é procurada num templo que honra e diviniza Marilyn Monroe, qual deusa que cura os inválidos através do contacto com droga e álcool); aparece o primeiro contacto com as relações sexuais, apresentadas como uma droga capaz de curar; é submetido a uma tortura violenta e é violado pelos próprios familiares; e é ignorado pelos próprios pais. Vivendo num retiro interior, onde contacta com a figura do pai (parecendo em dados momentos o seu refúgio religioso), surge (espantem-se!) o milagre que o transforma no centro do mundo: consegue tornar-se campeão de “pinball”! Este acto faz com que a família, mãe e padrasto, enriqueçam e comecem a ter uma vida desafogada, permitindo também o contacto (crítica às hipóteses de acesso a bens de saúde pública!) da doença de Tommy com os melhores médicos.
No meio desta necessidade de estabilidade familiar, Tommy acorda do sono profundo através de uma violenta queda. A partir daqui, assume uma postura deificada e cria uma seita que pretende a busca de uma harmonia interior e exterior. Como todos os falsos ídolos e falsos profetas (apesar de na índole Tommy demonstrar ter óptimas intenções), dada a exploração que é feita dos crentes, cai por terra a sua intenção de educar mentes e atitudes, através do contacto cego e desinteressado com o “pinball”.
O filme termina com o fechar do círculo. Após o ataque que leva à morte a sua mãe e o seu padrasto, Tommy inicia no meio das chamas o seu caminho de ascensão. Passando por todos os espaços onde inicialmente o pai e a mãe pareciam viver e conviver em profunda harmonia, dá-se o fechamento do círculo e o fim do filme.

Este é, talvez, o filme que apela mais a um entendimento daquilo que é o encontro semiótico entre diversas realidades. Neste caso, precisamos atender à ficção que é tratada no registo cinematográfico e a toda uma cultura ocidental, que se iniciou com a assumpção da religião católica e que se foi desenrolando com a assumpção da "religião" capitalista. Filme tremendo pelo fantástico trabalho musical dos The Who e pela desconcertante visão criativa de Ken Russell. Se querem um filme completo, ei-lo!

P.S. - Vão ter uma surpresa relativamente aos actores que desfilam neste filme.

quinta-feira, setembro 08, 2011

Saudades ou estarei louco?

Isto de ser Professor de uma turma cheia de alunos desiguais e que são claramente rebeldes tem muito que se lhe diga. Pronto, dirão que a ficção invade os espaços brancos deste blog ou que o professor é tão louco que tenta transmitir a sua loucura através de um post que supostamente teria (caso a loucura não pontificasse!) um tanto ou quanto de sinceridade. Sim, terão todos razão ou razão nenhuma; terão todos capacidade interpretativa ou estarão cegos das entrelinhas; terão todos a opção de clicar na cruz branca no quadrado vermelho no canto superior direito desta janela (a qual será a opção mais correcta se pensam em manter a vossa própria sanidade mental!) ou manterão a atenção sibilina e perscrutória de quem quer descobrir onde é que isto irá terminar. Se são pais, terão duas ou três opções (já decido quantas serão!): primeira - correr, guiar velozmente, teclar com uma ávida rapidez o número de telefone ou gritar bem alto para safarem os vossos filhos do contacto terrível com este professor que os leva a ler post's aparentemente sem qualquer razão de ser; segunda - contactar a delegação de saúde e pedir o rápido internamento deste louco numa das suas agradáveis casas de saúde e repouso; e terceira (o que decido? querem escolher? escrevo? continuo? termino? ou dou uma última opção?) - (então eu dou!) riam! riam! riam! (neste momento a loucura também será vossa!). Se são alunos, só me dão uma opção: primeira e única - continuar a escrever e a dar alguns momentos de inigualável e contagiante boa disposição.
É verdade: passaram alguns dias (serão semanas?) da última aula. Também é verdade: as saudades das aulas talvez sejam dos professores e não dos alunos.

(Escrito no dia 9 de Julho de 2009, mas continua actual!)

sexta-feira, setembro 02, 2011

Pensalamentos #16


A mentira serve-se num pires bojudo e a cobardia apensa a uma silva reptilizada.


Li: Olhos de Cão Azul, de Gabriel García Márquez



Resignamo-nos? Não! Lêmos a terceira.


Em pleno século XX, durante um período de convulsões sociais e políticas (onde se constroem ditaduras ao mesmo tempo que se calcorreiam caminhos de libertação utópica), que percorrem o mundo, amadurece um talento de extensão mundial que se revelará em 1947.
Gabriel García Márquez não é um escritor de biografia agradável ao leitor que procura um ser puro, limpo de má vida ou um Deus feito homem. Quem percorrer a sua autobiografia (Viver para Contá-la) depressa se apercebe que a transgressão e a marginalidade à vida são pratos fortes deste autor. Fará esta vida boémia e por vezes degradante que o autor se apague? Não, não , não e, outra vez, não! Tal como o calor da América Latina sugere aos corpos uma roupa leve a roçar a nudez, também este escritor sugere aos seus leitores o despojamento de alguns utensílios morais e de preconceitos que tornam, por vezes, a leitura de uma obra literária num jogo do esconde e encontra. Ou seja, ler é um exercício que por vezes é doloroso e exige a dádiva (obrigatória!) de sangue, suor e lágrimas, e doutras vezes transforma-se num exercício de sugestão erótica e sensual. Podemos apaixonar-nos por uma personagem de um conto, novela, romance ou de um qualquer texto literário? Podemos e devemos. García Márquez dá-nos essa possibilidade em toda a sua obra.
"A terceira resignação" (1947) é um conto da juventude. Depois de ter abandonado o seu projecto inicial e mítico (já!), "A revoada", sente que é tempo de começar por baixo. Melhor dizendo, é tempo de percorrer um trajecto de construção desde a base, é tempo de assumir as suas falhas e educar-se na escrita. Daqui nasce a ligação ao jornalismo e ao primeiro espaço de publicação da sua obra e, digamo-lo, à vida desregrada com classe. Com a publicação deste conto, García Márquez, cria uma corrente de escrita apelidada de realismo mágico. Creio que com a leitura deste conto nos apercebemos claramente do estilo. Onde já se viu um morto ganhar o papel de personagem principal? Onde já se viu a existência viva de um morto? Onde já se encontrou uma mãe que todos os dias (durante 18 anos!) mede o seu filho de forma a constatar que se encontra vivo apesar de morto?
Fabulosa leitura e uma viagem incrível até um universo que vive sobretudo dos conceitos de estranheza e de amor materno.
Boas leituras e boas descobertas!

quinta-feira, setembro 01, 2011

Quinta-feira (falei-te ao coração)

Despedaçado
O meu corpo ofegante
Em mil provações
E em não esperadas desilusões

A minha sede de vida
Cansou-se em ti
Que me olhas triste
E que desesperas a minha dor

O meu ar gastou-se
Em te amar do fundo de mim
E ofereci-te o meu último olhar
O meu último suspiro
E o meu derradeiro aspecto

Perguntas
Se te oiço amorosamente
Se te sinto suave
Se te vejo em traços definidos

Respondo-te
Mas não em gestos largos
Ou em tonitruantes sons

“Eu amo-te
Como pétala que ama a abelha
Em silêncio
Do fundo de mim
Eu amo-te
Até ao mais breve fio
Da minha dura e crua existência
Eu amo-te
Do fundo do coração!”

Tu não o ouviste
Não o sentiste
Não o viste

Eu falei-te na língua
Dos amantes
Na língua dos desesperados
Na língua dos conjurados

Eu pedi para partir…

Eu deixei o aconchego
Junto ao teu coração!


(d.r. 30-07-2011)

sábado, agosto 27, 2011

Li: "Arte de ser português", de Teixeira de Pascoaes


A "Arte de ser Português", de Teixeira de Pascoaes, é uma análise filosófica e lírica do SER português. Em cerca de 100 páginas explora a alma pátria e revela que só na espiritualidade é que um povo consegue atingir toda a sua plenitude. Curiosa é a visão do político português, do pósrevoluções liberais, que se contrapõe aos antigos representantes do povo nas cortes régias. Este visto como um homem de bem que defendia claramente a sua população e aquele um oportunista sectorial que só se preocupa com o partidarismo e com os seus próprios interesses singulares.
Outro dos pontos interessantíssimos é a visão da heterogeneidade do povo português enquanto resultado das misturas que a própria história das invasões apresenta. Para Teixeira de Pascoaes, somos nós, povo português, uma agregação das raças ariana e semita (depreendo que Aristides de Sousa Mendes foi um leitor deste livro!). Como é óbvio, também neste livro se fala de religião, de arte e de carácter. Em relação a este último conceito pouco se pode comparar com os dias de hoje, pois todos sabemos que a maior parte dos portugueses, em especial os que possuem lugares de responsabilidade, são seres amorfos, balofos e completamente desprovidos de algo que se aproxime da palavra carácter.

Para uma obra que está quase a celebrar os seus cem anos de publicação, é um estudo extremamente actual e necessário. Como é óbvio, esta última afirmação subentende tudo aquilo que sempre se aconselha: ler com o devido distanciamento e não assumindo tudo como verdade absoluta!

quarta-feira, agosto 17, 2011

Jaime Antunes é um sábio!

Não costumo dar conta das minhas leituras de opiniões de outros nos jornais nacionais, mas aquilo que li do ilustre Jaime Antunes (eterno candidato às eleições do Sport Lisboa e Benfica) sobre educação (este tipo fala sobre educação????) deu-me vómitos! Não é que na base não tenha alguma razão, mas conhecendo nós (povo português) o jeito ditatorial dos Directores de Escolas para atingir os fins sem olhar a meios deveremos ficar preocupados e não exultantes, como é o caso desta figura destacada da escrita portuguesa. Leiam o texto que saiu hoje (dia 17 de Agosto) na última página do Jornal i (onde parece este ser ser um conceituado cronista, mas desenganem-se: ele é o proprietário do jornal) e regalem-se com a claque acérrima deste homem às últimas decisões do Senhor Ministro da Calculadora. Ele até refere que manda o senhor Ministro dizer que "quem [Directores de Escolas] não apresentar resultados positivos deve sair"! Pergunto eu, senhor Jaime Antunes, o que são para si resultados positivos ao nível das escolas? Os que servem os alunos ou, como tem sido tónica, os que servem a estatística?

segunda-feira, agosto 15, 2011

25 de Abril de 1974: a tomada de assalto

Para quem, como eu, acreditava que Crato podia ser mais do que nome de cidade e, quem sabe, um Ministro em condições, aí estão o proteccionismo e a mesquinhez. Pelos vistos, são os contratados (aquele que ele chama de novos ou do meio da carreira) aqueles que têm de ser avaliados, pois dão maus resultados à Educação do País das Maravilhas. Talvez o Senhor Crato não se lembre (ou não saiba), mas há muitos "bons professores" da velha guarda (a que ele próprio pertence) que são autênticos analfabetos e que continuam instalados airosamente nas cadeiras douradas. Será que ninguém disse a este Ministro da Calculadora quem começou por não querer a avaliação?


Fiz este comentário a esta notícia do www.publico.pt .

quinta-feira, agosto 04, 2011

Crónica Bombeiros.pt – A bem de uns, façamos a desunião entre todos!

1. Portugal é um país verdadeiramente abençoado pela graça divina em alturas de aperto. Foi assim há oitocentos e tal anos, quando Afonso Henriques tentava formar um país; foi assim há quinhentos e tal anos, quando os Deuses decidiram que seriam os Portugueses os ilustres descobridores de novos mundos e da rota marítima para a Índia (pelo menos na versão de Camões!); e é assim no ano do senhor de dois mil e onze, quando de corte em corte se vão acalorando os bombeiros portugueses. Graças a Deus ou aos deuses, cá vamos tendo uma semanita de fogos, mas sol de pouca dura e tempo bastante para um descanso merecido no quartel, sendo que desta forma o dispositivo pode retemperar forças e preparar-se com solidez para a próxima semana quente que virá quando São Pedro quiser. Felizmente que há quem pense nos bombeiros, pois pareceu-me no início deste verão que para os nossos governantes é mais necessário ter administrações com mais quatro a ser ricos administradores do que investir em mais meios terrestres ou colocar mais um ou dois meios aéreos para apoiar o ataque aos incêndios florestais. A leitura que faço é tão simples quanto isto: os bombeiros podem bem estar enrascados a defender o país e os bens dos portugueses e, quiçá, ter durante esta época de incêndios duas ou três baixas mortais, mas os amiguinhos e carneiros de estimação dos partidos políticos têm de continuar a comer caviar e a beber “champagne” francês de papo para o ar durante esta altura de calor.

(...)


Guarda, 03 de Agosto de 2011
Daniel António Neto Rocha

(Texto publicado e disponibilizado no Portal Bombeiros.pt a partir das 01h00m do dia 04 de Agosto de 2011)

sábado, julho 23, 2011

Poema da primeira pessoa do singular quase só em tercetos

Simplesmente eu!
Eu!
Eu, eu, eu, eu, eu…

Eu.
Eu, talvez.
Eu, mesmo eu.

Eu, eu, eu!
Só eu!
Eu?

Sim, eu.
Eu, agora eu.
Mesmo eu?

Eu!?
Não sei…
Eu!

Eu, ah!, ah!, ah!
Só mesmo eu!
Amanhã, eu!

Ontem, eu!
Depois de amanhã, eu!
Tudo, tudo, eu!

Eu
Eu
Eu

Eu…
Por todo o lado, eu!
Mesmo eu?

Não…
Eu?
Só mesmo eu!

Só…

Eu.
Eu?
Eu?

EUUUUUUUU!
Finalmente eu.

Narcisista eu?



(23-07-2011)

domingo, julho 10, 2011

Pensalamentos #15

A um escrito de Herberto Helder

amparando as ternuras do inimigo
com um sorriso decadente. e andava
trocando os passos de sonho
por delicados gestos de besta.

sábado, julho 09, 2011

5 anos (para os amigos verdadeiros)




Se uma lágrima
Cantasse
O derrame de trovões
E de silêncios

Se a voz se
Ouvisse
No canto inglório
Da saudade

Se o pensamento se
Entregasse
A momentos
De eterna melancolia

Se o teu rosto
Viesse
Apascentar a
Dor da vida...

Amanhã
é outro dia.



(09-07-2011)

quinta-feira, julho 07, 2011

A minha leitura (breve) sobre o "rating" de Portugal e as políticas económicas europeias

Como será óbvio, eu não percebo nada de economia (ainda continuo sem perceber o milagre da multimultiplicação dos juros a pagar ao empréstimo da "santíssima trindade"), mas quero dizer duas ou três coisas sobre o assunto:

1.º - Está mais do que visto que a Alemanha está a lucrar com a "austeridade" que exige que haja em relação aos países "à rasca";

2.º - Já não é a Alemanha que controla a Europa mas sim as agências de "rating" americanas;

3.º - Uma vez que a prostituição de Portugal junto dos outros países não tem dado resultado nenhum, exijo que o nosso país passe a usar um cinto de castidade e exijo também que a chave se perca no fundo do oceano Atlântico! Porquê? Não repararam que passam a vida a F***R-nos e já nem pedem licença?


Para além desta minha leitura tão bem concebida, pretendo que a Europa repare na enternecedora mensagem subliminar que nestes novos dias é transmitida a partir da Assembleia da República. Ainda não repararam em nada? E que tal se repararem na estratégica junção ou emparelhamento entre a Ministra da Agricultura e do Ministro da Educação! Estará em preparação uma nova estratégia de recuperação de alunos? Ou uma nova política europeia de incentivo ao cultivo de nabos?

segunda-feira, junho 27, 2011

5.ª Jornada de Análise ao Incêndio de Famalicão (9 de Julho de 2011)



"O Projecto Sérgio Rocha tem vindo a realizar, ao longo dos últimos quatro anos, em colaboração com o Portal Bombeiros.pt e com o Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais (CEIF – ADAI), uma actividade formativa relacionada com o Incêndio que ocorreu no dia 9 de Julho de 2006 e que vitimou seis bombeiros, entre os quais o Sérgio Rocha (que empresta o seu nome a este projecto). Essa actividade tem sido reconhecida como um exemplo essencial para a formação de bombeiros e demais agentes da Protecção Civil, sendo-lhe concedidos os mais variados elogios por parte, principalmente, dos participantes (num total de cerca de trezentas pessoas) mas também por parte dos vários organismos e instituições relacionados com o combate a incêndios.

No presente ano, apesar de efectuadas múltiplas diligências para uma atempada realização, constatou-se que precisaríamos de reformular a forma como temos abordado os temas e a forma como deveríamos trabalhar no terreno o processo formativo, verificando que o montante a investir era incomportável para este projecto, uma vez que não possui verbas necessárias a essa realização.
Assim sendo, decidiu-se interromper por um ano esta Jornada, estando previsto para 2012 o seu regresso com mais e melhores actividades.
Desta forma, este ano o Acidente de Famalicão será recordado com uma acção mais informal e mais intimista, que consiste numa ida ao local do acidente (pelas 15 horas do dia 9 de Julho de 2011), onde se colocará uma coroa de flores e se fará um momento de reflexão e de troca de ideias por parte daqueles que queiram partilhar connosco este momento. Depois deste momento, o Projecto oferece um lanche a todos os participantes. A inscrição para esta deslocação deverá efectuar-se no Portal Bombeiros.pt.
No entanto, pretendemos que todos aqueles que se queiram deslocar ao local do acidente em dias diferentes daquele em que iremos assinalar este quinto aniversário o possam fazer. Desta forma, aceitam-se inscrições de grupos de pessoas para dias diferentes, tendo os interessados de enviar um pedido para o e-mail: projecto.sergiorocha@gmail.com, a solicitar esse acompanhamento. A partir desse contacto será efectuada a marcação.

Pela organização,

Daniel António Neto Rocha"

sábado, junho 25, 2011

Li: “Hieracita”, de Jaime Alberto do Couto Ferreira


O que esperar de um romance de trezentas e algumas páginas com o sugestivo nome de “Hieracita” (corruptela de “Hieracite”), que significa pedra preciosa usada para curar as hemorróidas?
O protagonista maior da obra (o narrador mais do que autodiegético), José de seu nome, vive numa aldeia de burgessos (alusão clara ao que foi (?) a aldeia natal do autor – Famalicão da Serra) de onde vai partir em busca de riqueza e, nota-se no desenrolar do fio da narrativa, ao encontro do conhecimento que nunca poderia atingir num “quotidiano entre as alimárias e os toscos”. Daí, decide sair e tentar a sorte tal como já tinha feito o seu irmão Alberto.
Assim que os dados estão lançados, o narrador dá-nos a visão do grande surto de procura da borracha (nas florestas brasileiras) e o autor mostra-nos todo o seu conhecimento em História da Economia, através de longas (demasiado longas?) descrições acerca dos problemas que se seguiram ao “boom” da borracha. Rico, “maçon” e agora proprietário de múltiplos terrenos em Famalicão, José torna-se um estrangeiro na sua terra.
Regressado de férias, fica fascinado com a beleza de uma menina “aperfilhada” por um padre, sendo em Famalicão que continuará a vida, sempre dando ares de galã e aproveitando para herdar a riqueza do padre Nave. Aqui começa uma descrição imensa sobre o papel da igreja e o autor volta a referir as milhentas leituras efectuadas em literatura oficial da religião católica, apresentando um rol de livros que, aparentemente, estavam na célebre arca do clérigo.
Antes de terminar a vida do narrador/ personagem e o próprio romance, o autor ainda tem tempo para: descrever hábitos e comportamentos dos burgessos de Famalicão e de mulheres “desgraçadas” por uma vida de depravação e de ingenuidade; apresentar histórias rocambolescas da banda filarmónica; e fazer uma apreciação muito curiosa sobre os professores da escola primária.

No final, para quem lê o romance fica a dúvida: estaria o autor a escrever um romance ilustrado com demasiadas referências bibliográficas ou estaria o autor a construir uma lista bibliográfica e saiu-lhe um romance? De qualquer das formas, é um romance que se lê bem (para o comum dos leitores, habituado a sofrer com a escrita realista e naturalista ou com a escrita intelectual de Umberto Eco) e que tem como feliz particularidade a existência de um narrador multifuncional (ao jeito de José Saramago) que cruza tempos e espaços diferenciados (como bem se nota na referência proléptica às eólicas que o narrador nunca sonhou sequer ver). A partir destes pontos de destaque, convém referir ainda a visão, que deve ser lida e analisada em jeitos antropológicos, de Famalicão e dos seus habitantes, pois a leitura sociológica que perpassa por toda a obra é a de que o nativo desta aldeia é abrutalhado e incapaz de um pensamento, havendo a necessidade da fuga ao vale para se atingir, por fim, a abertura de espírito capaz de construir consciências e educar o intelecto. Concordo plenamente com esta visão! Depois, importa fazer notar que é um romance que apresenta muitos erros de escrita, não se notando nele qualquer trabalho de edição por parte de um linguista ou de um revisor. Não é que este último ponto possa fazer do romance melhor ou pior, mas torna a língua deste romance bem pior. Por fim, o autor entrega-nos nas mãos um romance que deve ser lido por quem quer conhecer, não só, um pouco da alma de uma aldeia mas também o espírito dos filhos da terra que um dia saíram e por lá por fora ganharam a clarividência suficiente para conseguirem viver alheados dos burgessos típicos de Famalicão que ainda por lá vão recolhendo aplausos.

sexta-feira, junho 24, 2011

O dia antes

Os movimentos internos
Que o ser fez
Aparentando um reboliço
Um qualquer cataclismo prestes
Um tipo incomum de gestos
Plenos de novidade

Os começos de um ciclo
A ser longo e feliz
Cheio de marcas dolentes

A expulsão voluntária
O abraço materno
O largar das amarras
E o querer ser um eu
Independente.



(escrito a partir da observação da barriga que mexia, entre Junho de 2010 e Março de 2011)

terça-feira, junho 21, 2011

17. Crónica Diária na Rádio Altitude (2.ª temporada) – Crónica do consumo ou dos sítios públicos

1. Não sou muito de alegar “lugares comuns”, mas, deixem-me dizer-vos, que no meu tempo não se via nada assim. E não pensem que não havia já comportamentos de risco e coisas parecidas! Foi na semana passada que ouvi, mais uma vez, uma reportagem sobre o consumo de drogas na cidade da Guarda. Até aqui nada de novo, pois a nossa cidade sempre teve condições, chamemos-lhes “geo-comerciais”, excelentes para este tipo de comportamento, se não acreditam atentem ou pesquisem sobre o fantástico trabalho da “nossa” Polícia Judiciária, desde há anos, na luta contra esta ilegalidade. No entanto, nem eu – que creio sempre que tudo pode acontecer – estava à espera de ouvir o que ouvi no noticiário da manhã desta mesma Rádio Altitude. Na voz escondida de “um proprietário” de um café, ouviam-se palavras de uma tonalidade grave e de um medo extremo de um “conjunto de adolescentes” que se sentavam lá dentro não para consumirem os produtos que aí se vendiam, mas para (espantem-se!) fumarem uns charritos. Como, decerto, são jovens bem cotados na sociedade guardense, em primeiro lugar não se deram ao trabalho de ler aquele aviso que proíbe o consumo de produtos não comprados no estabelecimento, e, depois, o grupo de jovens ainda consegue dizer a esse proprietário que estão num lugar público, por isso podem fumar o que quiserem ou dizer o que bem lhes vá na “real gana”. Esta agora! Daqui a pouco dizem que dormem lá dentro e que o dono vá “ao diabo que o carregue” que aquele espaço é deles! Senhor proprietário, faça favor de os colocar na rua ou, se eles se recusarem, feche-os lá dentro e chame a polícia e os papás! Vai ver que por um lado ou por outro a coisa resolve-se. O que é certo é que este tipo de comportamento, que diz respeito ao consumo e posse de drogas leves, se vem generalizando e parece estranho, nos dias que correm, ouvir algum estudante do terceiro ciclo do ensino básico afirmar que nunca contactou com estas substâncias. O caso dos cafés da Guarda é, pois, um pequeno exemplo de algo que varre o país e que necessita de medidas urgentes - uma nova legislação sobre o consumo de drogas, uma vez que: ou se proíbe tudo, e a posse passa a constituir crime; ou se regulamenta a produção e a venda com fins específicos e em locais bem controlados, facilitando o controlo do consumo e da venda, e castigando quem se dedique ao comércio paralelo e com fins de tráfico ilegal. Sim, podem contar ao Vítor Gaspar e ao Álvaro Santos Pereira que há esta hipótese de amealhar mais uns trocos para o Orçamento de Estado com um imposto sobre as substâncias psicotrópicas de origem vegetal!

(...)

Guarda, 20 de Junho de 2011
Daniel António Neto Rocha

(Crónica Radiofónica - Rádio Altitude, no dia 21 de Junho de 2011 - disponível em podcast em Altitude.fm)

sexta-feira, junho 17, 2011

Pensalamentos emprestados #3


"O Professor é muito exigente nas aulas!"


P.S. - Pequeno comentário que funciona como interrogação a quem cair aqui em leitura: Não é essa a minha/ nossa função?

quinta-feira, junho 16, 2011

O materialismo informático é um dos elementos principais do PAC


A minha amiga e colega de profissão Liliana Verde enviou-me o "cartoon" que acompanha esta mensagem. É um "cartoon" que faz todo o sentido e que funciona como um aviso para as novas gerações de pais, pois este é um dos grandes motivos que fazem com que o PAC (Processo de Analfabetização em Curso), para o qual o meu caro amigo Manuel Poppe tem chamado a atenção, ganhe asas e voe.
Apetece-me ser bruto e acrescentar algo que já não é novo:
aos pais de hoje o que interessa é que os outros vejam que eles dão aos seus filhos as últimas modernices tecnológicas, mas nem se preocupam em dar-lhes uma educação que lhes permita usar a cabeça.

quinta-feira, junho 09, 2011

quarta-feira, junho 08, 2011

Crónica Bombeiros.pt: Mais do que exigir respeito, temos de aprender a merecê-lo!

1. Tenho andado algo atrasado na forma como interajo com os leitores deste nosso Portal, pois tenho uma vida, neste momento, intensa e, obviamente, muito saborosa. Nesta grande azáfama, tenho pensado muito naquilo que acontecerá aos bombeiros voluntários portugueses no ocaso (se posso ser assim optimista!) desta crise económica. Todos sabemos que haverá grandes reorganizações em todos os sectores da vida. O que fazer com um corpo social extremamente necessário mas que se pauta por um comportamento muito diferenciado e, se mo permitem, completamente destrambelhado (se atentarmos na forma como tantas “casas” são governadas)?

(...)


Guarda, 8 de Junho de 2011
Daniel António Neto Rocha

(Texto publicado e disponibilizado no Portal Bombeiros.pt a partir das 17h00m do dia 08 de Junho de 2011)

terça-feira, junho 07, 2011

16. Crónica Diária na Rádio Altitude (2.ª temporada) – Crónica de Oz ou da procissão do Adeus!

1. Cabe-me a mim, acérrimo defensor das qualidades indubitáveis e extremas do Primeiro-Ministro Engenheiro, dar a triste notícia ao vasto auditório deste espaço de opinião chamado de Crónica Diária. Cá vai a bomba tristonha: pelos vistos, ainda não é desta que emigro e deixo de vos provocar essa sensação de quase ardor nos ouvidos! Voilá! Sim, que andava eu todo entretido a pensar em que país se estaria melhor do que em Portugal, quando dou por mim no meio de uma população, que ama a propaganda e o facilitismo personificados numa já figura mitológica criada por um qualquer pseudo-Platão do merchandising político, a votar numa, já citada em tempos idos, figura literária surreal: o Coelho Branco da Alice no País das Maravilhas. Não quero estar para aqui a repetir textos idos, mas este personagem do romance de Lewis Carroll é reconhecidamente um eterno atrasado que tem de estar sempre a horas em todos os sítios, apesar de quase ninguém conseguir perceber que sítios são esses. Ora bem, tentando matar a metáfora que é mais comparação, no Domingo foi dia de eleições e o agora Primeiro-Ministro a ser é… (Oh!, pessoal, não se arranjam aí uns rufos para dar mais “pica” a isto? Ah!, pois… a Santíssima Trindade das ajudas e dos resgates, não é? Eu percebo… Voltamos a estar de tanga!) Voltando à vaca fria, a nova voz da rádio governamental é… Pedro Passos Coelho!

(...)

Guarda, 06 de Junho de 2011
Daniel António Neto Rocha

(Crónica Radiofónica - Rádio Altitude, no dia 07 de Maio de 2011 - disponível em podcast em Altitude.fm)

sexta-feira, maio 27, 2011

Memória: Manuel Poppe e os seus "Trabalhos e Dias"


Há quem diga que os meios de comunicação "internautas" (digitalmente falando) servem a imensa feira de vaidades em que todos nos enovelamos. Bem, cá está mais uma pequena vaidade em homenagem a um amigo.

"Sabe, Manuel, lá por ter sido homenageado, não quer dizer que agora já possa ser esquecido!"

E que bem sabe lembrar sempre Manuel Poppe através da leitura. Cá para mim, virá dele, brevemente, mais um grande momento de leitura.

Mas isto sou eu a adivinhar! Ou a constatar?

Ver mais fotos (quanto a mim um excelente trabalho do Arménio Bernardo) da exposição "Trabalhos e Dias", dedicada a ele, aqui ou ali.

terça-feira, maio 24, 2011

15. Crónica Diária na Rádio Altitude (2.ª temporada) – Crónica da ilusão ou “trinta mil milhões de quê?”

1. Sempre gostei de ilusionismo. Aquela aparente irrealidade que se condensa na arte de furtar aos olhos aquilo que não interessa vislumbrar sempre me deixou fascinado e tremendamente desconfiado. O grande David Copperfield encheu então a minha meninice de desconfiança e de uma suprema admiração. Era ele o grande mágico e o meu ídolo no mundo da ilusão. Assim sendo, li livros sobre magia, vi filmes e séries, olhei com redobrada atenção os movimentos e fiquei na mesma. Confesso-vos que não conseguia perceber como é que aqueles grandes artistas conseguiam ludibriar os meus olhos e levar-me a acreditar que tudo aquilo era a suprema realidade. O que é certo é que conseguiram iludir-me durante largos anos, conseguindo fazer com que eu imaginasse mundos alternativos e mágicos embebidos em truques de fazer cair o queixo. Posso dizer-vos que fico, ainda hoje, algo chateado com o facto de ser ludibriado por estas artes, mas agora sei que tudo não passa de uma arte feita entretenimento e consigo dormir descansado e menos desconfiado.

(...)


Guarda, 23 de Maio de 2011
Daniel António Neto Rocha

(Crónica Radiofónica - Rádio Altitude, no dia 24 de Maio de 2011 - disponível em podcast em Altitude.fm)

domingo, maio 22, 2011

Vi: "Futebol de Causas", de Ricardo Antunes Martins

A História de Portugal é um caleidoscópio de acontecimentos, parecendo uma história surreal e com contornos de magia. Hoje, apeteceu-me partilhar convosco um pouco de um documentário que já vem a caminho de minha casa.
E se o futebol se tranformasse numa arma política? E se a bandeira das reivindicações académicas fosse um rectângulo verde e onze camisolas negras? Tudo isto acontece em "Futebol de Causas". É um documentário alternativo que apresenta a essência das movimentações da Academia de Coimbra no período que precede as eleições presidenciais de 1958 e a crise académica de 1969. É um documento fenomenal e que todos nós, cidadãos amantes ou não amantes de futebol, deveríamos conhecer.
Afinal a liberdade fez-se de múltiplas formas, não foi?



FUTEBOL DE CAUSAS - trailer oficial from Persona Non Grata on Vimeo.

quarta-feira, maio 18, 2011

5000


Obrigado pelas vossas leituras! Vão vindo e comentando, pois aqui não há repúdios nem propaganda partidária!

sexta-feira, maio 13, 2011

Poema motivado pelo Manuel António Pina

Naquela semana, já saudosa, dos inícios de 2010, quando a Guarda começou a homenagear da melhor forma (através do contacto, da análise, da leitura, ...) os escritores com ligações reais à cidade, orgulhei-me de ser um dos que leram e declamaram Manuel António Pina ao longo do Ciclo com o seu nome.






O poema que declamei na altura, na sessão de leitura no Teatro Municipal da Guarda, foi:

A UM JOVEM POETA

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
De ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
Ainda, sob tanta
Metáfora; pode ser, e que quando
Nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.




Depois de contactar com este poema, decidi responder-lhe. Agora que o reconhecimento da obra deste excelente autor é real, e realmente lusófono, quero partilhar convosco este poema e deixar-lhe, a ele, esta humilde oferenda:


Aviso a um navegador de jardins feio!

(a Manuel António Pina)

Alimenta-te da rosa!
Busca-a incessantemente
Perscrutando montes
E ribeiros
E até algumas
Lixeiras.

Coloca-a na grosa
Afinando as suas
Curvas petalares
E multiplicando
Os seus ais.

Relembra-lhe a
Infância, semente
De tempos perdidos
Envolta em manto
Morto e
Nauseabundo.

Então, talvez...
Nota que a sua beleza
Passa, rápida e mutável,
E a tua solidifica,
Onde ninguém a vê!

(20/01/2010)

terça-feira, maio 10, 2011

14. Crónica Diária na Rádio Altitude (2.ª temporada) – Crónica de Chora-Que-Logo-Bebes ou da virgem socrática entristecida

1. Em 1933, enquanto escrevia periodicamente pequenas histórias para a gazeta juvenil O Sr. Doutor com o pseudónimo de Avó do Cachimbo, José Gomes Ferreira estava muito longe de saber que a sua alegoria sobre o Portugal dos anos 30, intitulada As Aventuras de João Sem Medo, ganharia uma dimensão tremendamente actual oitenta e tal anos depois, e que daria azo a uma crónica radiofónica na cidade da Guarda. Para quem não conhece esta pequena pérola literária de aparência juvenil, que nada fica a dever ao mundialmente famoso Animal Farm, de George Orwell, fiquem a saber que é um conjunto de aventuras que têm como denominador comum a personagem heróica de João Sem Medo – um jovem contestatário da aldeia de Chora-que-logo-bebes, que está farto de viver no meio de lamúrias e de lágrimas. A partir do momento em que a humidade e o verdete se tornam insuportáveis, João parte da sua aldeia, apesar de todos os receios que a sua chorosa mãe lhe apresenta. Quase profeticamente, se atentarmos naquilo que aconteceu fisicamente na Alemanha e psicologicamente acontece por este mundo fora, o nosso herói depara-se com um muro altíssimo (metáfora da ignorância que acompanha os homens) que tem como função impedir o contacto com outro mundo – a chamada Floresta Branca, espaço dos sonhos, dos mitos e do desconhecido. Ora, para chegar a esse espaço de eleição, João Sem Medo tem de atravessar o Muro, que contém a seguinte inscrição: “É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir”, dito que parece indiciar a seguinte leitura: só quem tem consciência de si poderá aventurar-se num novo mundo. A história teve um sucesso notável naquela época, tendo sido recuperada em forma de romance em 1963, quando a luta contra o regime de Salazar se revelava mais intensa. Nesta edição, o autor ainda não desconfiava, mas apresentava já a imagem de homem desafiador das regras impostas e um exemplo de coragem perante a adversidade tão necessário nos dias de hoje.

(...)


Guarda, 09 de Maio de 2011
Daniel António Neto Rocha

(Crónica Radiofónica - Rádio Altitude, no dia 10 de Maio de 2011 - disponível em podcast em Altitude.fm)