Mostrar mensagens com a etiqueta Bombeiros.pt. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bombeiros.pt. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, outubro 28, 2016

Crónica Bombeiros.pt: Pequena carta aos filhos dos bombeiros

Amigos,
Como imagino que podeis não saber ainda ler, peço ao vosso pai ou à vossa mãe (ou mesmo a outro familiar) que me ajude a chegar a vós.
Sabeis, neste tempos difíceis em que os vossos pais bombeiros têm passado tanto tempo longe de vós, eles têm partilhado alguns instantes, algumas aflições e tanto e tanto suor com outros homens e mulheres que, como eles, tentam defender o vosso futuro e o vosso país.
Não, eles não vos abandonaram nem sequer se esqueceram de vós. Aliás, em todos os momentos de descanso ou de viagem rumo a outro incêndio, é de vós que eles se lembram e é a vós que desejam voltar rapidamente.
Sim, eles só vos vêem a vós! E dizem mesmo que o que os move é o vosso sorriso, a vossa alegria, quando chegam, cansados, e vos vêem correr para eles de braços abertos ou vos vêem dormir, descansados, em casa. Sim, os vossos pais sabem que vós os amais. Sim, os vossos pais amam-vos acima de tudo e de todos.
Aqui há dias, enquanto combatíamos um incêndio no cimo de uma montanha, a montanha mais alta de Portugal, e no momento em que o Sol e a Lua apareciam quase a par e mostravam que algumas flores tinham sido poupadas, alguns bombeiros acabavam de apagar um dos sítios que ardiam. Assim que tal aconteceu, sentaram-se por momentos e falaram de vós, pequenos heróis, que estavam em casa à espera de uma notícia ou de apenas um Bom Dia! E falaram do gosto de cada um de vós pelo momento em que se ligam as luzes brilhantes do carro de bombeiros e vós vos juntais a um momento de descansada diversão no quartel. Nesse momento, vós sonhais com o ser bombeiro e com o papel importante que ele, bombeiro e vosso pai, tem.
Sabeis, naquela montanha, naquela manhã, naquele momento em que o Sol e a Lua bailavam acima de tudo e de todos, naquele instante em que vários pais falavam sobre os vossos sorrisos, uma frase simples, em jeito de pergunta, ficou-me no ouvido e foi dita por tantos de vós no momento que os vossos pais saiam de casa:
“Pai, vais ajudar as pessoas?”
Sim, os vossos pais vão ajudar milhares de pessoas, mas amam-vos acima de tudo! Nunca se esqueçam!

Daniel António Neto Rocha
Famalicão da Serra, 9 de Setembro de 2016

Crónica Bombeiros.pt: No país dos sábios e santos

Não haverá país no mundo inteiro onde, por ordem e graça divina, a sabedoria tenha sido tão semeada como nas terras senhoriais de Portugal, tanto continental como insular.
Que somos um país abençoado pela graça divina… já o sabemos desde o Ourique, relembrado recentemente por sua excelência o (novo) Presidente da República. Também o sabemos pela capacidade formativa ao nível da santidade: temos António, temos Nuno, temos os beatos e outros teremos, certamente. Por fim, temos também a vinda da virgem santíssima que decidiu instalar-se em Fátima. Tudo isto, vejam bem, apenas com um pequeno correr de memória da santidade portuguesa.
Santidade vista… falemos da sapiência que, pelos vistos, também será qualidade do ADN de ser português. Poderíamos comprovar este facto com provas dadas e com trabalho feito por gentes que se destacam nas mais diversas áreas, mas tudo isso para quê? Não podemos nós fazer antes alusão à esperteza que conduz as mais diversas instituições que acabam por ruir? Não poderemos nós fazer menção a todos aqueles que “em bicos dos pés” e com uma “sem-vergonhice desmesurada” se aprestam a dizer presente quando a ausência é sempre notada?
Pois bem, de aparecimentos divinos e sapientes em função da comunicação social estão os bombeiros fartos, mesmo que a desfaçatez destes santos e sábios de ocasião tente passar uma ideia contrária.

Moimenta da Serra, 6 de Julho de 2016

Crónica Bombeiros.pt: “Puta que pariu” o terrorismo à maneira portuguesa!

1.São tempos de convulsões extremas na dita sociedade ocidental. O medo – aliado a um desconhecimento imenso do “outro” – e a subsequente insegurança – até agora encapotada pelos milhões de euros, dólares, etc. – são motivos para governantes e seus protegidos se aliarem numa tentativa flagrante de manutenção de um estado de coisas favorável à escravidão dos novos tempos e à ditadura dos números. Tudo isso vitima de uma ganância e de uma assumida estratégia de soma de parcelas em que se exploram os de cá (os do seu próprio país) e os de lá (os dos países controlados por ditadores assumidos ou por grupos criminosos “de pistola e catana”) sem olhar para a forma como os direitos humanos mais básicos se transformam em palavras de ordem e de desordem nas ululantes redes sociais. Ah!, tudo isso misturado com a moda da defesa intransigente de tudo o que mexe e rebola, nem que seja pela acção do vento. Mas, não nos desviemos do assunto! O terrorismo, tal como antes, assume hoje características impensáveis para uma dita sociedade das nações ou sociedade mundial ou sociedade humana. O terrorismo é hoje motivo para migrações de pessoas cansadas de estar aprisionadas em campos de concentração modernos (os chamados campos de refugiados) em que famílias inteiras esperam apenas pela morte, subsistindo e pouco mais. O terrorismo mediático, o tal dos “gajos fundamentalistas do islão”, é, aparentemente, aceite pelos polícias do mundo com uma calma preocupante, enquanto morrem milhares de pessoas e milhões vivem em constante estado de terror.

2.E nós por cá, pelo rectângulo encantado à beira mar plantado? Nós, por cá, preocupamo-nos! E ainda bem! Somos gente capaz de estar atenta às necessidades dos outros e de “sofrer” com a agrura destes povos aterrorizados por guerra, bombas e gente capaz de queimar os cidadão com um litro de gasolina. Mas, o que leio eu, nós preocupamo-nos com o “terrorismo fundamentalista islâmico” e não nos preocupamos com o “terrorismo incendiário” que nos persegue há tantos e tantos anos? Sim, também o povo português vive rodeado de um terrorismo pouco escondido, com fumo a entrar-nos pelos olhos e pelos pulmões, e com um constante aterrorizar das pessoas que vivem no meio rural e, pasmemo-nos, até com as pessoas que vivem no meio urbano. E se para combater o “terrorismo lá de fora” (sim, sei que estão a dizer que temos de prevenir o que pode vir a acontecer no futuro) são até implementadas leis que fazem de um curioso, sobre estas hordas de verdadeiros infiéis às religiões, um terrorismo em potência e com mandato de captura imediata, no caso do terrorismo cá de dentro o que fazem os governantes? Nada mais, nada menos do que tirar às forças de investigação (às forças policiais) a oportunidade de encontrar indícios de que estas acções terroristas são isso e nada menos do que isso. E são estas “pequenas” asneiras legislativas, aliadas à constante desculpabilização da negligência grosseira e dos comportamentos marginais, que fazem com que o doce aroma do Verão português seja o da madeira queimada. “Puta que pariu” o terrorismo à maneira portuguesa!

Moimenta da Serra, 24 de Setembro de 2015

quarta-feira, junho 24, 2015

Crónica Bombeiros.pt: Lá vai um, mas só um, um Kamov a voar…

E Portugal e as entidades que ganham dinheiro com Portugal… aí estão no seu melhor! Uma frota de meios aéreos essenciais para a sobrevivência não só da cadeia de Protecção Civil de um país (lembremos que se trata de um equipamento utilizado no socorro urgente e no combate a incêndios florestais e no transporte de doentes e etc.) e fica INOP de um momento para o outro, como se de uma surpresa se tratasse.
Não, não estou a dizer que não existem imponderáveis (como acidentes ou outros inconvenientes), mas há um controlo de meios e do seu desgaste que tem de ser efectuado sem… (e aqui pode doer) pensar só em ganhar dinheiro ou distribuir o mesmo dinheiro! Oito anos de desgaste de meios aéreos não foram acompanhados por equipas técnicas? Oito anos de trabalhos intensos não foram suficientes para salvaguardar a época e impedir que “a surpresa” acontecesse?
No início de Abril, em Viseu, perguntava eu ao Senhor Secretário de Estado da Protecção Civil o que aconteceria ao dispositivo, ao nível de meios aéreos, se houvesse um excesso de ocorrências e a carência desses meios. Ou melhor, se havia um plano B para o reforço desse contingente aéreo. A resposta foi: sim, tudo está previsto! As palavras significaram isto, não sei se foram efectivamente estas.
Agora, e perante este facto que é ter uma falha de vários meios aéreos e ainda não ter começado o “foguetório”, as perguntas que se impõem são: Há alguém a pensar e a cuidar dos meios para que eles não faltem quando deles mais se precisa? Ou a única questão que se coloca é saber quanto se ganha ou se distribui pelos “mais amigos”?

Moimenta da Serra, 23 de Junho de 2015

terça-feira, abril 21, 2015

Crónica Bombeiros.pt: O poder de uma “mentira”

Foi, como já fizemos menção, a nossa mentira do dia 1 de Abril, o tradicional Dia das Mentiras onde se perdoa um oportuno desvio da natural verdade noticiosa dos outros trezentos e sessenta e alguns dias. A “notícia” tinha como título “DECIF 2015: Bombeiros vão ter de passar recibo verde” e despertou muita curiosidade e levantou muita e, digo eu, necessária discussão.
A pergunta que muitos mantêm passados cerca de vinte dias é: e se fosse verdade? Pois bem, também eu, enquanto trabalhador português a recibos verdes, me coloco a mesma questão… e, o certo, é que não é nada despropositado que esse dia chegue aos bombeiros portugueses. Para quem não conhece (e esperando que haja muitos que não conheçam e pedindo ajuda aos que conhecem melhor do que eu), o recibo verde terá sido uma criação governamental transitória e reguladora de situações pouco esclarecidas e indesejáveis que se transformou no regime predilecto de contratação da “patronice” nacional, instituições governamentais incluídas. Até aqui penso que não erro muito.
Pois bem (outra vez), dentro deste regime de trabalho é incrível o número de actividades consagradas e as cambiantes para cada uma, tanto ao nível do IVA como do do IRS. Daí que… não era nada descabido que cada um de nós, bombeiros, pudéssemos ser obrigados a prestar contas sobre as compensações que recebemos nos DECIF. Digo mais, talvez fosse uma boa forma de evitar alguns “abusos” que podem, ainda, ir acontecendo por esse país fora. Não, não conheço nenhum, mas tenho a mania de ficcionalizar as coisas.
E é dentro deste contexto que surgem muitas e boas questões suscitadas pela “notícia” publicada por nós aqui no Portal. A discussão que originou revela dois campos de diálogo diferentes e bem necessários: em primeiro lugar, a necessidade de haver um amplo esclarecimento público no universo dos bombeiros portugueses sobre as compensações atribuídas aos seus elementos, começando nas direcções, passando por comandantes e contemplando bombeiros e suas famílias; em segundo lugar, a percepção por parte do Governo de que a visão que os portugueses, no geral, têm da relação que mantêm com as Autoridade Tributária é igual à que em Inglaterra havia em tempos entre o povo e o Xerife de Nottingham, ou seja, as Finanças, para os portugueses, só servem para “tirar” e não para “regular”.
Aí está o poder de uma “mentira” que, no interesse geral e devidamente enquadrada, poderia nem ser uma má medida de todo.

Moimenta da Serra, 20 de Abril de 2015
Daniel António Neto Rocha

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Crónica Bombeiros.pt: Pensar diferente


Não farei uma grande exposição, pois para grandes males os pequenos remédios são mais eficazes, mas apetece-me falar sobre nós, bombeiros, e sobre a forma como nos vemos. Regra geral, todos pensamos que somos os melhores e, a cultura que nos vendem, diz-nos isso mesmo. Somos os melhores e ponto! 
Depois, todos nos apercebemos das carências que temos nas nossas corporações (quantas vezes corremos atrás de meros equipamentos de segurança) ao nível do mais básico da nossa profissão e refilamos, berramos, e mais, e mais, mas fazemos tudo como se estivéssemos super equipados (também mentalmente). E, não, não estamos! Somos dedicados, aplicados e voluntariosos, mas isso não chega. Para além disso temos de nos conhecer bem e aceitar as nossas limitações, rirmos do desajuste que temos entre o que podemos (e devemos) fazer e o que efectivamente fazemos (tantas vezes colocando-nos em risco). 
Mas, nada disto é exclusivo de nós “a carne para canhão”. Isto é especialmente preocupante nas esferas directivas, que continuam a acreditar que são os melhores e os mais sobredotados. Este é o mal que temos de reparar antes que seja tarde para outros. 
Porém, nem só de “certezas absurdas” está o nosso Inferno cheio. Também precisamos de repensar a nossa atitude perante a vida que nos rodeia, começando por saber rir dos absurdos dela. E dos absurdos da nossa realidade, pois nenhuma realidade é isenta de humor ou de factos que podem ser risíveis. Nós, bombeiros, merecemos mais! E é por merecermos mais que eu não aceito que alguém diga que “há bombeiros que não pensam”, “que há bombeiros que não percebem o que se lhes diz”, “que há bombeiros que têm de ser levados pela mão”, etc.. Os Bombeiros Portugueses precisam de começar a exigir que os não tratem como mero “verbo de encher”.


Moimenta da Serra, 17 de Fevereiro de 2015

sexta-feira, setembro 12, 2014

Crónica Bombeiros.pt: Sexo, Drogas e Incêndios



Por incrível que pareça, não foram os incêndios das últimas semanas que estiveram no foco reflexivo principal de todos aqueles que vivem os bombeiros portugueses com intensidade e sinceridade.
Por incrível que pareça, foram as letras gordas dos jornais e os sons agressivos da rádio e televisão a anunciar que alguns dos “nossos” bombeiros eram responsáveis pelo início de um sem número de incêndios, foram as notícias a anunciar que dois dos “nossos” bombeiros tinham sido apanhados devidamente uniformizados em pleno acto de tráfico de droga, foram as notícias de um dos “nossos” bombeiros que usou a ambulância para a prática de sexo… Estes foram os momentos negros que importa, sim, trazer para a discussão e lançar uma pergunta que merece, sim, uma visão mais romântica (o estatuto agónico do bombeiro é sempre uma visão que vende bem), mas será preciso, principalmente, que essa mesma pergunta tenha uma resposta bem mais realista: O que é um Bombeiro?
Dos casos que atrás se enunciaram, e que estiveram presentes nos intervalos do combate a incêndios, o último (sim, o do bombeiro, sexo e uma ambulância) merecerá uma menção especial e rápida, pois trata-se de uma questão de cinema. O desejo despertado pelos filmes sobre bombeiros, de origem principalmente norte-americana, na mente dos bombeiros portugueses poderá ter originado esse acontecimento, juntando-se por fim aquele célebre provérbio que diz que a “ocasião faz o ladrão”. Neste caso, parecerá que o calor terá elevado os corpos a um estado tal de desejo que a irracionalidade provocada pelos filmes e pelo sexo terá sido mais forte. Um descuido? Um acto irreflectido? Um desejo secreto? Talvez, mas um mau princípio e uma atitude primária que deve estar longe de seres que se querem racionais e objectivos na missão que quiseram abraçar. Logo, querem-se homens e mulheres que cumpram as suas missões e que não se remetam a momentos que, acredito, possam ser interessantes mas que não são os daquele espaço. Para além disso, e vendo o lado positivo e risível, pode ser uma boa oportunidade de negócio para os empreendedores dos encontros românticos: vá, empresários da hotelaria, empreendam e abram um quartito para encontros românticos dentro de uma ABTD! Aposto que terão clientes e que o sucesso será tal que até me poderão atribuir uma percentagem desses ganhos.
Os casos dos bombeiros incendiários e do tráfico de droga são questões de polícia e merecem, da parte de quem se entrega a esta causa de forma honesta, o tratamento mais radical possível. Nós, bombeiros portugueses, temos pais, irmãos, amigos que morreram em incêndios e não podemos permitir que os “nossos” bombeiros nos coloquem em risco só porque estão mal dispostos ou tiveram um mau dia. Esses homens e mulheres não merecem nem podem estar do nosso lado e devem, de imediato, ser expulsos de todos os corpos de bombeiros e entregues às autoridades policiais. Não pode nem deve haver contemplação com estas atitudes que, como todos sabemos, nos colocam em risco máximo. E isto é extensível aos “nossos” que nos comprometem ao utilizar drogas ou ao praticar qualquer tipo de negócio obscuro ao coberto do bom nome dos bombeiros. Vejam que não foi o “João” ou o “António” que foram detidos por tráfico de droga ou por crime de incêndio. Foram os “bombeiros” que foram detidos. É toda a estrutura dos bombeiros, todos aqueles que dão de si na defesa da sociedade e na defesa das pessoas e bens, que estão a ser expostos pelos crimes de meia dúzia de delinquentes que contaminam as nossas fileiras.
Sim, tudo isto para chegar ao ponto e à questão fulcral que é preciso colocar de forma fria e objectiva: estamos nós, bombeiros portugueses, a recrutar quem não pode nem deve ser recrutado?
   

Famalicão da Serra, 7 de Setembro de 2014
Daniel António Neto Rocha

(crónica publicada no Portal Bombeiros.pt no dia 8 de Setembro de 2014)

quarta-feira, julho 09, 2014

Crónica Bombeiros.pt: É a sua honra que está em jogo, Sr. Ministro!



É uma das grandes discussões dos últimos dias, mas é também uma das exigências governativas e uma das necessidades mais visíveis nos bombeiros há, pelo menos, 8 (oito) anos. O Equipamento de Protecção Individual, vulgo EPI, era algo que só em sonhos é que eu, o meu irmão e a maior parte dos bombeiros portugueses pensávamos em vir a ter até Julho de 2006. No dia 9 de Julho de 2006, o meu irmão deixou de poder ter esse sonho e as entidades do sector fizeram uma autêntica revolução legislativa e organizativa que, por tão necessária e exigente que era, ainda hoje não está concluída. Daí para cá, aterrou equipamento a granel nos quartéis, em quantidade mas de qualidade duvidosa, que alegrou, pasmem-se, a maior parte dos bombeiros, inclusive eu. Claro está que para quem tem fome um prato de arroz é um oásis apetecível e nem sequer se discute se é suficiente ou não para aquilo que se faz. Calaram-se as vozes por uns tempos após a esmola. Já quanto ao resto… temos de assumir que começou a existir maior preocupação com o rigor e com a formação dos bombeiros, já a aplicação de qualquer um desses aspectos é algo que poderemos discutir, pois essa discussão também está aí.
Mas permitam-me regressar ao tema desta crónica, pois é o EPI que está aqui no centro da discussão. Só quando começámos a ter um ponto de comparação (com o aparecimento da FEB e do GIPS) é que notámos que eles vestiam bem e nós treta! E começámos a pedir mais qualquer coisa. Mas, e este é o país que temos, tanto o Governo como as Associações de Bombeiros se declaravam incapazes de pagar esses equipamentos. Claro que, e conheço bem a minha para o poder afirmar, quase todas as Associações “remendam e tapam” buracos, por vezes endividando-se, para conseguirem equipar todos os seus homens, optando (erradamente, diremos todos) por preferir a quantidade à qualidade. Mas, pergunto-vos eu, quem não optaria por ter todos os homens com uma percentagem grande de protecção em confronto com a possibilidade de ter metade dos homens com protecção total e a outra metade sem ela? Agora, da parte Governativa vem a pior parte. O Governo não tem verba suficiente para vestir todos os bombeiros portugueses com EPI de alta qualidade? Tem! E já o deveria ter assumido! Espero, sinceramente, que a “sorte” que tem sido madrasta para nós, que damos tanto por nada, seja este ano bem diferente. Se assim não for, espero que o senhor Ministro saiba que deverá demitir-se no primeiro momento em que algum bombeiro português sofra, durante esta época, qualquer tipo de lesão por causa de EPI que não obedeça às normas. É a sua honra que está em jogo, Sr. Ministro!
Claro que, e espero que todos se lembrem disto, não é o EPI o mais importante no combate ao incêndio. O mais importante de tudo é a vossa/ nossa capacidade de dizer não às missões suicidas!
Hoje marcam-se oito anos, em Famalicão da Serra, da morte do meu irmão e eu gostava que tudo fosse diferente daquilo que já foi até hoje.

Famalicão da Serra, 9 de Julho de 2014
Daniel António Neto Rocha

(crónica publicada no dia 9 de Julho de 2014 no Portal Bombeiros.pt)

sexta-feira, maio 09, 2014

Crónica Bombeiros.pt: Pela boca morrerá o bombeiro



Muitas vezes nos habituámos/ habituamos a ouvir dos nossos “mais velhos”, dos pais e dos nossos conselheiros da interacção social a célebre expressão “O SILÊNCIO É DE OURO”. No correr dos dias e da nossa actividade profissional ou de outra espécie, lá fomos dando conta (alguns mais do que outros) da razão que assistia a esses abençoados seres que nos deram o “melhor” dos conselhos.
Há, porém, momentos em que NÃO DEVEMOS, de forma alguma, seguir este sábio conselho e mantermos a cautelosa recusa da voz. E é por isso mesmo que vos peço, a vós que ireis para o seio do perigo e necessitareis de todas as armas possíveis: POR FAVOR, NÃO FIQUEM EM SILÊNCIO! E, pedindo isto, reforço: oiçam a ordem superior, mas questionem-na se não a entenderem/ compreenderem ou se sentirem que não serão capazes de cumprir! Lembrem-se de que nenhum plano de ataque é cumprido com a exactidão da projecção no papel e que os riscos, que surgem quando menos se esperam, têm de ser evitados.
Para além disso que escrevo nas linhas acima, ainda vos digo mais: usem a “porcaria” dos rádios! Sei que há muitos que não os utilizam por vergonha, para evitar a crítica que outros fazem à excessiva utilização do rádio, muitos dizendo que “os incêndios não se apagam por rádio!” Lembrem-se que é através das comunicações que todos temos consciência dos perigos ou das oportunidades do ataque a um incêndio: eles servem, portanto, para questionar, para informar e, em suma, para nos ajudar a manter vivos.
Para terminar, e para que todos tenham uma boa missão, deixem-me voltar, insistentemente, à sabedoria popular para a “virar do avesso”. Todos sabemos, por isso tantas vezes nos calamos, que “pela boca morre o peixe”, mas também sabemos que, se optarmos pelo silêncio obediente perante uma decisão claramente errada de quem comanda, PELA BOCA MORRERÁ O BOMBEIRO!


Moimenta da Serra, 6 de Maio de 2014
Daniel António Neto Rocha

(publicado no Portal Bombeiros.pt)

sábado, março 08, 2014

Crónica Bombeiros.pt: Bombeiros têm medo

São muitos os que apregoam a necessária revolução em todos os sectores da sociedade portuguesa, e, como é óbvio e salutar, também no reino dos bombeiros sabemos que algo tem de mudar. No entanto, e infelizmente, continuamos todos a “assobiar para o lado” quando os factos são tão óbvios como visíveis, aparentando que todos temos “o rabo preso” em algum interesse mesquinho ou em algum amigo que não pode ser tocado pela constatação do erro que realmente cometeu. Chegamos pois à triste ideia de que os bombeiros portugueses têm medo de se assumir como os principais obreiros das suas próprias vidas e carreiras. Ou, espantem-se, pensam todos vocês que a súbita e estranha aproximação de quadros directivos das várias entidades aos bombeiros (homens e mulheres, gente que realmente está no terreno) é mera coincidência? Nós, homens e mulheres bombeiros, temos medo de sermos nós a tomar a palavra que sabemos que merecemos usar e tornamo-nos tantas e tantas vezes “instrumentos” de mera utilização calculista e abusiva. Dá jeito morrermos! Dá jeito que tenhamos lesões graves! Dá jeito que choremos! Dá jeito que nós, homens e mulheres, sejamos o elo mais enfraquecido, pois só assimos abutres poderão refastelar-se com os nossos corpos. No entanto, nós continuamos com medo de dizer “basta!” e de assumirmos nas nossas próprias mãos a tomada de decisão sobre a nossa utilização enquanto força mais capaz de defesa dos nossos concidadãos! E esta “É a Hora!”
 
P.S. – Ver, ouvir e ler os apelos desenfreados de alguns dirigentes e antigos altos responsáveis por entidades de bombeiros a exigir a punição dos “incendiários” do Caramulo dá-me um certo “nojo”! Em que gabinete se escondiam estes defensores quando, de 2000 a 2012, morreram 31 (trinta e um) dos nossos camaradas? Quando dá jeito, somos defendidos! Quando não dá, somos esquecidos!


Famalicão da Serra, 5 de Março de 2014
Daniel António Neto Rocha

segunda-feira, outubro 14, 2013

Crónica Bombeiros.pt – Bestas não, mas pouco sérios sim!

1. As palavras fogem quando a vontade de as aprisionar na velha folha de papel gasto é maior do que o próprio sentido daquilo que foi acontecendo nos últimos meses na nossa comunidade de bombeiros. E, não, não estou a falar daquilo que a sociedade pensa de nós e que alguém já caracterizou, numa linguagem mais térrea do que a minha, como uma espécie de passagem do oito ao oitenta, regressando depois ao oito. Estou, sim, a referir-me ao nosso (e estou a apontar directamente para cada um dos senhores leitores e para mim próprio!) vício tremendo de sermos os maiores lá no bairro e, quase de certeza, no universo inteiro. Sim, porque nós somos os supra-sumos que não foram apanhados pelas chamas e que, desengane-se quem disser o contrário, nunca o seremos, pois, como num golpe de magia, seremos sempre safos pela nossa experiência e pela nossa capacidade de estarmos fora do lugar errado à hora certa. E, mais ainda, nós somos aqueles que nunca erraram, pois as nossas decisões podem ter sido, e isso sim, mal interpretadas por aqueles (os ignorantes e inexperientes e… sim, traumatizados!) que acabaram por vir a morrer ou a ficar feridos. É que nós, os que tudo sabem e a quem quase nada passa ao lado, podemos sempre falar e especular à confortável distância dos problemas. Já os outros, os que ficam feridos e hão-de, talvez, não perceber bem o que se passou porque afinal tudo correu bem, vão por certo compreender a sorte que tiveram em ficar vivos e querem é esquecer e não voltar a olhar para aquela direcção que lhes deixou cicatrizes e uma má recordação, mas irão, por certo, ser agraciados com as palmadinhas de quem lhes há-de dizer que se não fosse a forma como actuou e teve sangue frio não teria saído dali, avisando-o, contudo, que a culpa foi toda dele. E há ainda os que nunca vão ter hipótese de ler esta crónica e que nunca irão poder analisar nada daquilo que aconteceu e que nunca mais serão lembrados porque a sua memória nos poderá causar algum tipo de insónias por aquilo que não fizemos ou não soubemos fazer. Sim, nós, enquanto comunidade de bombeiros parecemos unidos mas não o somos, porque se cometemos um erro havemos de o querer empurrar até nos sair da vista e cair nas mãos de um dos nossos que até tem o azar de não se saber defender e de ficar com um problema nas mãos, mesmo se estivesse a quilómetros de distância do sítio onde ele aconteceu. Sim, porque nós, bombeiros portugueses, antes que alguém nos diga o que na realidade aconteceu num qualquer acidente, já sabemos que os nossos camaradas foram azelhas, burros, ignorantes e todos os outros adjectivos que lhes manchem o nome ou a, em alguns casos, memória. Sim, porque para nós é mais importante mostrar que sabemos algo do que perceber aquilo que efectivamente aconteceu e, neste ponto, mostramos que toda a nossa vocação é unicamente destruir o outro. 

2. Porque lhes digo isto com uma carga de ironia tão acentuada? Porque é impressionante como no nosso universo se criam histórias mirabolantes para acusar os outros de algo que nem sabemos bem como aconteceu ou para nos descolarmos de algo que efectivamente aconteceu sob a nossa responsabilidade. E é este o ponto que mais me importa ressalvar. Estaremos nós a educar as nossas hostes com o devido respeito pela incorporação da responsabilidade? Estará a nossa vocação de bombeiros preparada para assumir sobre os ombros o peso responsável das nossas próprias decisões? Deixo esta reflexão à vossa consideração. 

3. E chegamos por fim àquele momento quase “zen” em que olhamos para factos que fazem parte do mundo surreal das esferas mais elevadas dos bombeiros. E, como penso que fica sempre bem, este momento pertence por inteiro ao senhor Presidente da Liga. É que estou neste momento perante um imenso dilema que é quase trágico mas que também é cómico. Gabriel García Márquez, escritor colombiano e um dos galardoados com o prémio Nobel da Literatura, publicou em 1961 um dos romances que me vêm à memória todas as vezes que penso no senhor presidente. Chama-se “Ninguém Escreve ao Coronel” e relata a vida de um Coronel na reforma que espera ansiosamente pela chegada de uma carta. No maravilhoso jogo de contrários que a nossa comunidade de bombeiros permite, este romance serviu de ponto de partida para eu inverter esta história e para poder lançar aqui uma questão em jeito de provocação consciente que espero não seja mal percebida pelos adeptos sportinguistas. A minha dúvida é esta: se quiser escrever uma carta ao senhor Comandante, onde é que ele a poderá receber e dar resposta? Já tentei para a Rua Eduardo Noronha e não obtive resposta. Será que tenho de a enviar para o Estádio de Alvalade? 

Famalicão da Serra, 14 de Outubro de 2013 
Daniel António Neto Rocha

 
(Texto publicado e disponibilizado no Portal Bombeiros.pt no dia 14 de Outubro de 2013)