terça-feira, abril 21, 2015

Crónica Bombeiros.pt: O poder de uma “mentira”

Foi, como já fizemos menção, a nossa mentira do dia 1 de Abril, o tradicional Dia das Mentiras onde se perdoa um oportuno desvio da natural verdade noticiosa dos outros trezentos e sessenta e alguns dias. A “notícia” tinha como título “DECIF 2015: Bombeiros vão ter de passar recibo verde” e despertou muita curiosidade e levantou muita e, digo eu, necessária discussão.
A pergunta que muitos mantêm passados cerca de vinte dias é: e se fosse verdade? Pois bem, também eu, enquanto trabalhador português a recibos verdes, me coloco a mesma questão… e, o certo, é que não é nada despropositado que esse dia chegue aos bombeiros portugueses. Para quem não conhece (e esperando que haja muitos que não conheçam e pedindo ajuda aos que conhecem melhor do que eu), o recibo verde terá sido uma criação governamental transitória e reguladora de situações pouco esclarecidas e indesejáveis que se transformou no regime predilecto de contratação da “patronice” nacional, instituições governamentais incluídas. Até aqui penso que não erro muito.
Pois bem (outra vez), dentro deste regime de trabalho é incrível o número de actividades consagradas e as cambiantes para cada uma, tanto ao nível do IVA como do do IRS. Daí que… não era nada descabido que cada um de nós, bombeiros, pudéssemos ser obrigados a prestar contas sobre as compensações que recebemos nos DECIF. Digo mais, talvez fosse uma boa forma de evitar alguns “abusos” que podem, ainda, ir acontecendo por esse país fora. Não, não conheço nenhum, mas tenho a mania de ficcionalizar as coisas.
E é dentro deste contexto que surgem muitas e boas questões suscitadas pela “notícia” publicada por nós aqui no Portal. A discussão que originou revela dois campos de diálogo diferentes e bem necessários: em primeiro lugar, a necessidade de haver um amplo esclarecimento público no universo dos bombeiros portugueses sobre as compensações atribuídas aos seus elementos, começando nas direcções, passando por comandantes e contemplando bombeiros e suas famílias; em segundo lugar, a percepção por parte do Governo de que a visão que os portugueses, no geral, têm da relação que mantêm com as Autoridade Tributária é igual à que em Inglaterra havia em tempos entre o povo e o Xerife de Nottingham, ou seja, as Finanças, para os portugueses, só servem para “tirar” e não para “regular”.
Aí está o poder de uma “mentira” que, no interesse geral e devidamente enquadrada, poderia nem ser uma má medida de todo.

Moimenta da Serra, 20 de Abril de 2015
Daniel António Neto Rocha
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