1. E o que interessa cumpre-se: bebe-se vinho; come-se como se não houvesse amanhã; vive-se intensamente o amor familiar; ama-se o quente da lareira caseira; abraça-se o amor verdadeiro; e olha-se o futuro com auspiciosa ansiedade. No dia seguinte, eis-nos, com umas gorduritas e com uns gramas a mais, a caminho do virar do ano, que é como quem diz: da ingestão de mais uns quantos venenos, para a saúde, tremendamente saborosos! Mas quem se importa com isso no meio deste clima geral de desânimo em que Portugal aterrou e em que, muito provavelmente, todos os que viveram à grande no passado continuarão a viver à grande? Pois… dirão vocês e eu. Rendido às evidências que as mensagens de Natal dos pobres governantes deste país me trazem, a única coisa de que me consigo lembrar é de aproveitar para ir ao hospital este ano e antecipar desde logo as consultas de urgência que de certeza terei de fazer nos próximos anos para curar as minhas laringites e faringites, que no futuro me custarão mais do que um mês de trabalho. Mas, como por vezes sonho que em tempos vivi à grande e gastei todo o dinheiro a comprar vivendas no Algarve, apetece-me, quando caio na realidade, imitar as palavras de Ricardo Araújo Pereira e perguntar ao grande tronco da nação se também tive assento nas negociatas da Sociedade Lusa de Negócios ou se a taluda que o BPN concedeu aos felizes contemplados com empréstimos milionários se aproximaram sequer de mim, pois posso garantir a esse senhor, que é um imenso monte de lenha seca e oca, que, desses negócios tão frutíferos para os seus bolsos, eu só tenho pago dividendos que outros tiveram e não me recordo de ter recebido nada que me tivesse feito ter uma vida menos complicada desde que me conheço. Enfim, não vamos estragar este clima de festividade com palavras tão desagradáveis sobre ladrões e amigos de ladrões que parecem bandos de pardais à solta quando se trata de festas, festanças e inaugurações.
2. Esta consoada e este dia de Natal que ainda agora passaram foram muito especiais para a minha família. Nesta inconstância que regula a existência humana, o melhor que temos é a lembrança dos que nos amaram e daqueles que nos amam. Daí que estes dias possuem a riqueza de serem tristes e alegres, de serem uma espécie de novelo bem fechado que aparenta só luz e som mas que no seu interior guarda atenciosamente as sombras e o silêncio que nos acompanham. Foi, desde o mês de Julho do ano de 2006, o primeiro Natal em que a minha mãe teve nos lábios um sorriso profundo e alegre. Digo-vos que o teve porque o intermediou com o sorriso da saudade de uma vivência futura em tempos sonhada e com o sorriso triste da falta no passado cavada. Sim, neste caminhar dolente da vida em que a lembrança da partida do meu Irmão está sempre presente, existem pequenos momentos de alegria que acalmam o caudal imenso de dor que nos atropela constantemente. Felizmente, “nem tanto ao mar, nem tanto à terra” e o pequeno Sérgio trouxe a este Natal um pouco do sorriso em tempos perdido pela sua avó paterna. E a vida lá se vai expandindo pelo leito que continuamente se modifica e que vai sendo profundamente marcado pela inconstância que os dias apresentam na força dos seus desígnios.
3. É então este um Natal diferente daqueles que nos precederam e nem as dificuldades conseguem mover a honestidade, a sinceridade, o amor e o espírito de partilha que existe dentro da minha família. E é com um pouco deste imenso sentimento de partilha que vos revelo a satisfação que tenho por estes dias serem um pouco menos doridos e por saber que os tempos de dificuldade que o novo ano nos trará serem única e exclusivamente de ordem financeira, pois naquilo que interessa não haverá falta de um conforto familiar babado com a ternura que só um filho consegue dar, mas isso já muitos de vós o sabem. Como também já todos sabem, o meu filhote é extremamente dado à ironia. O que vocês não sabem é que ele tem um olhar que derrete glaciares e um sorriso que ilumina a noite mais escura. Ora ele, no seu jeito brincalhão e quase sem palavras, virou-se para mim, enquanto nos aquecíamos no madeiro de Natal em Famalicão, e disse-me: “Pai, não te preocupes que eu vou contigo para o Brasil ou para Angola. Sozinho é que não vais!” Depois disto, o que é que eu poderia dizer?
2. Esta consoada e este dia de Natal que ainda agora passaram foram muito especiais para a minha família. Nesta inconstância que regula a existência humana, o melhor que temos é a lembrança dos que nos amaram e daqueles que nos amam. Daí que estes dias possuem a riqueza de serem tristes e alegres, de serem uma espécie de novelo bem fechado que aparenta só luz e som mas que no seu interior guarda atenciosamente as sombras e o silêncio que nos acompanham. Foi, desde o mês de Julho do ano de 2006, o primeiro Natal em que a minha mãe teve nos lábios um sorriso profundo e alegre. Digo-vos que o teve porque o intermediou com o sorriso da saudade de uma vivência futura em tempos sonhada e com o sorriso triste da falta no passado cavada. Sim, neste caminhar dolente da vida em que a lembrança da partida do meu Irmão está sempre presente, existem pequenos momentos de alegria que acalmam o caudal imenso de dor que nos atropela constantemente. Felizmente, “nem tanto ao mar, nem tanto à terra” e o pequeno Sérgio trouxe a este Natal um pouco do sorriso em tempos perdido pela sua avó paterna. E a vida lá se vai expandindo pelo leito que continuamente se modifica e que vai sendo profundamente marcado pela inconstância que os dias apresentam na força dos seus desígnios.
3. É então este um Natal diferente daqueles que nos precederam e nem as dificuldades conseguem mover a honestidade, a sinceridade, o amor e o espírito de partilha que existe dentro da minha família. E é com um pouco deste imenso sentimento de partilha que vos revelo a satisfação que tenho por estes dias serem um pouco menos doridos e por saber que os tempos de dificuldade que o novo ano nos trará serem única e exclusivamente de ordem financeira, pois naquilo que interessa não haverá falta de um conforto familiar babado com a ternura que só um filho consegue dar, mas isso já muitos de vós o sabem. Como também já todos sabem, o meu filhote é extremamente dado à ironia. O que vocês não sabem é que ele tem um olhar que derrete glaciares e um sorriso que ilumina a noite mais escura. Ora ele, no seu jeito brincalhão e quase sem palavras, virou-se para mim, enquanto nos aquecíamos no madeiro de Natal em Famalicão, e disse-me: “Pai, não te preocupes que eu vou contigo para o Brasil ou para Angola. Sozinho é que não vais!” Depois disto, o que é que eu poderia dizer?
Famalicão da Serra, 25 de Dezembro de 2011
Daniel António Neto Rocha
(Crónica Radiofónica - Rádio Altitude, no dia 27 de Dezembro de 2011 - disponível em podcast em Altitude.fm)
(*) Excepcionalmente, esta crónica é publicada na íntegra. Talvez porque é Natal.
Daniel António Neto Rocha
(Crónica Radiofónica - Rádio Altitude, no dia 27 de Dezembro de 2011 - disponível em podcast em Altitude.fm)
(*) Excepcionalmente, esta crónica é publicada na íntegra. Talvez porque é Natal.
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