quarta-feira, janeiro 05, 2022

Um Bom Ano de 2022

 


Um Bom Ano de 2022 cheio de Teatro e de trabalho!
Espero por vós nas primeiras apresentações já agendadas de EU! KRAPP...
Serão nos dias 12 e 19 de Fevereiro!

sábado, outubro 09, 2021

Voltar a escrever por aqui

Fui, e muito bem, questionado por um leitor deste blogue (que os há!) das razões que me levaram a não estar tão presente neste que é um dos meus espaços prediletos para partilhar o que vou pensando.

As razões são muitas, mas, depois de feita a reflexão necessária, percebi que nada impede a equilibrada partilha e escrita, uma vez que a mesma vai sendo feita noutras plataformas. Assim sendo, irei recomeçar a intervir e publicar neste espaço.

Prometo que tentarei ser regular e dialogante com quem quiser, depois, questionar ou discordar comigo. Em democracia é assim! E, infelizmente, tenho vivido cada vez menos em espaços de diálogo e de democracia. Começarei, portanto, por em breve dar-vos conta daquilo que são as minhas impressões sobre as eleições, e as movimentações que as rodearam, no concelho onde voto: Gouveia.

Até já!

terça-feira, dezembro 15, 2020

Respirar lá dentro... no escuro...


Os dias em que se vive são intensos e belos, cheios de aromas e de impulsos que nos apertam e cativam. Dentro deles a vida parece sem importância e plenamente nossa, integralmente possuída e adaptada às nossas vontades, desejos e ambições. Dentro desta somos livres e vivemos e respiramos e espera-se que nos deixem viver e perseguir sonhos com a mesma vontade com que nós desejamos a existência dos sonhos dos outros e as suas próprias conquistas.

Não invejo as conquistas dos outros. Nunca invejei. Desde pequeno, desde a mais tenra idade, sempre me lembro de partilhar e de dar a quem me rodeava aquilo que eu tinha ou que me era dado, naquele breve momento, possuir como meu. Desde essa altura, tenho muitas dificuldades em descobrir um só instante em que a inveja ou o desejo de ter algo meu fosse uma realidade que prejudicasse alguém. Sim, sempre pensei mais nos outros do que em mim. Cresci, continuei a dar o que tinha e o que não tinha, senti-me tantas e tantas vezes mal por ser tantas e tantas vezes prejudicado por não ser filho de pais que fazem parte de grupos de influência e que facilitam a vida dos filhos. Mesmo assim, continuei sempre a dar o pouco que tinha.

Neste instante de agora, tantos e tantos anos depois, sinto-me no fim de uma linha. Não consigo ser diferente, tento e tento perseguir o ser que sempre fui na relação com os outros, seja dentro da família ou fora dela, tento, no entanto, ser feliz com aquilo que tenho e que sinto que consegui de forma honesta, trabalhadora e simples. Não vou ser diferente daquilo que fui, pois não sou um ser diferente daquilo que aprendi e que me fez o homem que todos conhecem. Mas sinto que já só consigo respirar lá dentro, no escuro, escondido de quem, afinal, deveria ajudar-me a respirar.   

terça-feira, setembro 22, 2020

Em Homenagem: Eng. Maia e Professor Pires

 

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas… pelo vento;
De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

 

 

 

Comecei por ler um poema de Miguel Torga que, espero, possa ser a porta de entrada para o entendimento de todas as outras palavras que se seguem.

Coube-me, hoje, a responsabilidade de, nesta tarde de tempos inquietos, lembrar e partilhar convosco um pouco da vida e gestos de duas pedras basilares do Instituto de Gouveia que este ano partiram, como todos sabemos, em circunstâncias difíceis de entender. Difíceis de entender porque a vida nos tem habituado a que a longevidade seja uma realidade e também porque nada nem ninguém nos prepara para a partida de amigos que nos fazem bem. E estes que nos partiram, meus caros, eram pessoas de bem e que nos faziam bem. E digo “partiram” no sentido múltiplo da palavra, que implica afastamento mas também desagregação ou destruição. De uma forma mais simples, todos sentimos, desde a dupla partida, a dor e uma sensação de desajuste que o tempo, dizem, tratará de aligeirar.

Tinham, estes que lembramos, defeitos? Certamente teriam. Tinham momentos menos bons? De certeza que sim. Mas tinham, acima de tudo, uma presença que a todos agradava e que a todos completava. Falo, obviamente, e digo-o como eu os chamava, do Engenheiro Maia e do Pires. Desculpem-me esta fuga para um discurso mais informal, eventualmente menos laudatório, mas os dois homens que eu conheci tinham os pés na terra e era dela que se erguiam, tal como a “videira” de que falava Torga.

Espíritos inquietos, digo eu, que se mostravam através do gosto pelas artes e pela cultura, como sempre, e bem!, fizeram questão de vincar, seja através da ligação às direções de várias associações culturais do concelho, seja através da dedicação pessoal e cuidadosa à prática e cultivo dessa mesma veia criativa. No caso do Pires através do gesto fino e certeiro com que nasciam desenhos, pinturas ou uma ou outra personagem em momentos teatrais. No caso do Engenheiro Maia através do gesto amplo e paternal com que desafiava, acolhia, regava e encorajava as ideias que, muitas vezes, tantos de nós lhe propúnhamos. Poderíamos pensar que (e nos dias de hoje seria o mais óbvio!) o gesto fino e o gesto amplo entrariam em conflito. E talvez, por vezes, as ideias não fossem completamente comuns. Mas os homens que conheci e que comigo, e com todos nós, partilharam momentos, tinham o dom da palavra. E digo palavra porque o ponto de encontro entre todos é, e deve continuar a ser, o da partilha da palavra. O diálogo que é como a imagem “da mãe a fazer a trança à filha”: admirável e digno de atenção.

Felizmente todos tivemos a oportunidade de partilhar a palavra com eles. Seja no gabinete da Direção, onde ao final do dia, tantas vezes, se constituía uma “mesa redonda” de troca de opiniões, de preocupações, mas também de desejos e de ambições. Tudo sempre regado com uma boa dose de humor, e de fina ironia, que espicaçava os sorrisos e nos dava a exacta dimensão dos dias.

Caros amigos, do Pires conhecemos o caminhar, desde tenra idade, desde África até Gouveia e por aqui marcar um espaço ímpar. Do Engenheiro Maia conhecemos a sua ligação à terra, desde criança, nas difíceis caminhadas pelos montes, mas também na busca incessante por melhor servir, por saber mais sobre esta mesma terra e por descobrir novos caminhos para ela.

Os dois souberam, tal como o pai que ergue a videira, abraçar a missão de erguer mais e mais o Instituto de Gouveia a cada dia que lhe dedicaram.

Hoje agradecemos nós aos dois pelos sorrisos que partilhámos juntos!



Gouveia, 19 de Setembro de 2020




(Vídeo montado pelo Filipe para o espectáculo "O Século em que a Terra Parou", apreciado por estes que em palavras se encontram)
 

terça-feira, março 17, 2020

Acerca do Desterro #2 - É assim tão difícil tomarmos conta de nós em liberdade?

Não sei como está a ser nas restantes casas, mas cá pela minha tem havido alguma dificuldade em fazer com que dois pequenos rapazes, habituados a correr pelas ruas da aldeia fiquem emparcelados. Claro que tudo isto se deve ao desejo de conhecer o mundo, de soltar as asas e voar ao som da idade.
No caso dos mais velhos, responsáveis pela sua própria vida, será assim tão difícil perceber que ao colocarmos de parte a recomendação de nos suspendermos um pouco (poucos dias, comparados com os que desejamos viver livremente) estamos a colocar em risco muitas centenas de vidas?
Tenho pensado muito sobre tudo isto. Tenho pensado muito sobre as decisões que todos temos tomado em deixar de parte aquilo que é o nosso "ganha pão" para possibilitarmos que se ganhe tempo para o bem comum poder vencer. 

Daí que urge pedir a todos que fiquem quietos!
Daí que urge pedir a todos que peçam a familiares para ficarem onde estão e não se movimentem!
Daí que urge que esqueçam todos aquilo a que chamamos férias e que nem pensem em ir visitar os familiares mais velhos lá à aldeia!
Daí que urge pensar mais no outro do que em nós!

Todos temos telefones para contactar e para chegarmos junto daqueles de quem gostamos. Por isso, é urgente avisá-los de que, para o seu próprio bem, não os iremos visitar nos próximos tempos. 

Eu tenho saudades da minha avó, tenho saudades da minha mãe, tenho saudades de toda a minha família que está longe de mim, tenho saudades de todos as pessoas com quem partilho o gosto de fazer teatro, tenho saudades dos meus alunos e dos meus colegas. Sim, tenho saudades! Mas quero continuar a ter por mais algum tempo até que a minha presença não os coloque em risco a eles ou a deles a mim. 

É tempo de não ter pressa, para em breve nos abraçarmos! 
 

domingo, março 15, 2020

Acerca do Desterro #1 - Amor em tempos de Covid19

Não sei o que toda a gente pensa sobre os dias que vivemos, mas confesso-vos que ainda não consigo perceber bem esta realidade que nos caiu em cima. Estamos no papel de desterrados da nossa própria vida, ou melhor, da vida que tanto nos habituámos a viver. 
Ainda ontem, ou anteontem (em tão pouco tempo de desterro os dias começam a confundir-se), olhava pela janela de casa e pensava nos dias seguintes como momentos de contacto e de ligação em prol de projectos e aulas e amizades que tinham datas e lugares marcados. A aceleração pessoal, a excitação dos dias, a aproximação de datas para apresentar o resultado de meses de trabalho intenso e tão apaixonado... 
Hoje a incerteza já não é uma opção. Há a certeza de dias de afastamento físico e de projectos que poderão cair por terra. Há a certeza de um vida que irá mudar radicalmente até que o medo e o desconhecido possam de novo dar lugar ao sol que nos comanda e nos aquece os dias.
Mas é tempo de dar espaço e de ajudar os outros que estão, neste momento, na linha da frente de toda esta luta desenfreada pelo menor dano possível.
É para mostrar o nosso amor por médicos, enfermeiros, farmacêuticos, auxiliares e demais funcionários do sector da saúde que nós devemos proteger-nos e ficar em casa.
É para mostrar o nosso amor por cientistas, investigadores, forças de Proteção Civil que estão no terreno a contactar com doentes (como elementos da Cruz Vermelha e Bombeiros) que nós devemos proteger-nos e ficar em casa.
É para mostrar o nosso amor por quem de telefone em pulso gere com necessária calma o atendimento a milhares de pessoas que precisam de ajuda (seja por culpa deste inimigo cruel, seja por outras doenças) que nós devemos proteger-nos e ficar em casa.
É para mostrar o nosso amor pelas forças de segurança que precisarão de toda a nossa colaboração que nós devemos proteger-nos e ficar em casa.
É para mostrar o nosso amor pelas Forças Armadas que estarão, com toda a certeza, a suportar e a preparar-se para darem todo o seu apoio a tantas outras pessoas que nós devemos proteger-nos e ficar em casa.  
É para mostrar amor por todos aqueles que amamos (e que muitos de nós têm numa qualquer profissão que acima mencionei) que nós devemos proteger-nos e ficar em casa.
Se tivermos dúvidas sobre tudo isto, olhemos os rostos das pessoas que mais amamos e imaginemos tudo o que seremos capazes de fazer para as continuarmos a amar por muito e largos anos.

Os dias que se aproximam serão de adaptação a uma nova realidade.
Os dias que se aproximam irão, de certeza, assustar-nos.
Os dias que se aproximam irão ser de grande desconfiança.

Mas sabemos que estamos, de dentro das paredes das nossas casas, a ajudar todos aqueles que têm de estar lá fora a ganhar uma batalha que é de todos.

Vamos proteger-nos e ajudar a proteger todos aqueles de quem gostamos muito!

domingo, junho 30, 2019

Pensalamentos #288 - intermitência

morrer aos poucos
soluçante
errando os lugares
os dias
as horas
os segundos
e os suspiros

morrer aos poucos
longe dos teus braços
dos teus lábios
do ar que partilhas
do azul de ti
do teu engano

morrer aos poucos
como luz que se extingue
no centro de um eco
que olhei
indefinidamente
até ao fim
de mim

domingo, junho 16, 2019

Pensalamentos #287 - ...

a vida
a vida
a  v i d a
...
ponto a ponto
passo a passo
...
devagar
a empalidecer
o sorrir está gasto

quarta-feira, junho 05, 2019

13. Crónicas Silenciosas - estar a mais

Tenho em mim um defeito terrível mas tremendamente eficaz. Há quem me censure por optar segui-lo tão firmemente e não defender o direito ao espaço, ao concreto, ao ser que também é meu por trabalho. Mas não... não consigo manter-me rectilíneo se não puder manter-me inteiro e íntegro. Não gosto, não suporto, não consigo estar a mais. Se é esse o meu lugar, a mais no espaço e no tempo, lá sigo a necessária busca por uma realidade alternativa e recomeço o meu caminho. E talvez esteja prestes um novo recomeço.

segunda-feira, dezembro 24, 2018

quarta-feira, dezembro 12, 2018

Comunidade de Leitores de Gouveia, dia 15 de dezembro de 2018, às 15h


Tenho uma Pedra na Cabeça – no lado esquerdo anterior frontal ou nada disto de Daniel António Neto Rocha é o próximo livro a ser debatido pelos elementos da Comunidade de Leitores de Gouveia (C.L.G.), em sessão marcada para o dia 15 de dezembro, pelas 15h30m, na Biblioteca Municipal Vergílio Ferreira.

A escolha deste livro de poesia de um autor nascido na Guarda, mas que vive, há já algum tempo, no concelho de Gouveia, partiu de um convite da Professora Cristina Robalo Cordeiro para que, numa das sessões da C.L.G., fosse debatido um escritor do concelho, de modo a inseri-la no Plano Nacional de Leitura (PNL Ler + Ciência). Desta forma, após o entusiasmante Encontro da C.L.G., em setembro passado, em que foram discutidos dois livros de poemas de João Rebocho, os leitores gouveenses regressam à poesia e a um autor do concelho.

(Informação da Comunidade de Leitores de Gouveia)

sábado, dezembro 08, 2018

Pensalamentos #286 - provérbios e expressões idiomáticas

em nome de coisa alguma
em nome da modernidade
em nome do crenças modernas
em nome de qualquer coisa
em nome disto ou daquilo
em nome da nova verdade 
em nome disso

pobre cultura...
apagada pela máquina moderna
a caminho do nada
e do continuar a dar as pérolas a cada vez mais porcos

terça-feira, novembro 27, 2018

12. Crónicas Silenciosas - da ingratidão

A vida e a morte têm destas coisas simples e inexplicáveis ou, se preferirem, complexas e impensáveis. Digo que são a vida e a morte para não dizer que são a malícia e a ignorância, que são o fruto mais comum dos chãos que pisámos comummente.
Está por horas o momento que, em parte da nossa vida, olhámos como destino e como ponto de chegada para uma missão que abraçámos. Está por horas aquilo pelo qual és responsável. Mais uma das "coisas" que deste desde que partiste da terra onde crescemos.
Apesar de tudo aquilo que lhes deste, e de todos saberem que tu lhes deste, todos te esqueceram e todos fingem nem teres existido. Aliás, hoje usarão o teu nome como mero adorno ao discurso laudatório ao Doutor X e ao Doutor Y que fizeram nem se sabe bem o quê nas sombras. Hoje, teremos gente que se elogiará e que te esquecerá. Hoje, não foste convidado, pois já és descartável como é a tua família. 
Hoje, nenhum dos que fazem parte da tua pele estarão por perto (como desejaram os que te vêem como estorvo). De tantos convites feitos, esqueceram-se de ti. Isso só diz uma coisa: querem apagar a tua memória. Hoje, tentam apagar a tua memória, mas esquecem-se que é ela que preenche todos os espaços. Hoje, enquanto os falsetes contaminarem vozes que te (se ainda houver um pouco de vergonha!) lembram, não há espaço para a ignorância e para a malícia.
Hoje, dos oportunistas falará o presente, mas encontrar-nos-emos honrados para todo o futuro.     

terça-feira, novembro 20, 2018

11. Crónicas Silenciosas - estou farto de velórios!

"Não gosto de ser triste!", repito eu com demorada insistência nas curvas da vida. Talvez todos digam o mesmo ou o digam com maior certeza gramatical. Pois eu, não gosto mesmo de ser triste! Seja no sentido de viver imerso numa cruel e desumana desumanidade, que trate os outros como seres inferiores ou meros pedaços de lixo. Ou, então, no sentido de respirar a vida com demasiado verdete (à maneira de um choraquelogobebense) produzido pelos excedentes de matéria lacrimal.
Vem tudo isto a respeito dos múltiplos lugares de trabalho onde o silêncio tumular invadiu as salas de coabitação e onde, por vezes, o único som que se ouve é o do lento arrastar das cadeiras para não perturbar quem descansa, cedo de mais, num "eterno descanso" à maneira moderna. Gosto de barulho, de conversa e de uma dose de loucura que invada as almas e os espíritos de todos, e os levante da antecipada missa de corpo presente. Estou farto de velórios! Estou farto de amizades que se vão cedo de mais, de amor que é levado sem a minha autorização e de sorrisos que se apagam e não volto a ver.
Não, não e não!
Desatem as amarras da loucura sadia e deixem-na vogar em torno de nós. Loucos, sim loucos! Loucos por viver longe do silêncio de prisões e de obrigações de vida respeitável. Loucos por viver com o sorriso perene preso nos lábios e nos recusarmos a largá-lo. Loucos, sim loucos, porque sim e sem justificações maiores do que o simples facto de estarmos vivos e gostarmos de estar vivos. 

quarta-feira, novembro 14, 2018

Crónica ao Professor Tó Zé


Esta crónica já existe há muitos anos e pertencerá ao meu livro (que está à espera de um mecenas que possibilite a sua publicação ou de melhores dias monetários da minha parte) de crónicas chamado "A(l)titude Crónica". O prefácio a este livro de crónicas já está feito pelo Pedro Dias de Almeida, o filho deste amigo a quem dediquei este texto. 
O Professor António José Dias de Almeida (o meu amigo Professor Tó Zé) é um incontornável da minha vida e... um exemplo de luta e de dedicação a este mundo da literatura. Será homenageado pela Câmara da Guarda, mas não esqueçamos que já o foi há muitos anos atrás pelo, então Presidente da República, Jorge Sampaio. 

Aqui fica a crónica que, em Fevereiro de 2012, lhe dediquei:
 


Crónica ao Professor Tó Zé ou do Prémio Café Mondego 2011


1. Estávamos já nos últimos anos do milénio anterior quando eu e o Armando desatámos à “porrada” em pleno corredor. Éramos, por esses dias, alunos do terceiro ciclo no Liceu e, acabadinhos de fazer a Telescola em Famalicão, chegávamos à Guarda com propósitos um tanto ou quanto enevoados – nem nós sabíamos bem o que queríamos, nem aquele espaço parecia oferecer-nos nada daquilo que nos estava destinado. “Putos” da aldeia, meio “gandins” e com alguns problemas em aceitar que nos apelidassem de “ruras”, vingámo-nos um no outro, não sei bem porquê. Penso que nunca mais trocámos mimos idênticos, apesar de, com toda a certeza, termos trocado mais algumas palavras azedas. Por esses dias, pelos cantos da mítica escola de Vergílio Ferreira, eram contadas histórias inacreditáveis sobre um bando de malfeitores que possuía um título pomposo: os alunos da turma H. Como seria de esperar, nós pertencíamos a essa turma. Pois bem, entretidos na troca de galhardos murros misturados com sublimes pontapés, não reparámos no amontoar de professores e funcionários que se afastavam, temendo aqueles dois monstros que se digladiavam. Ali estivemos em agradável esbofetear alguns minutos até que um desconhecido apareceu e nos separou, enquanto nos dedicava palavras plenas de boas intenções. Foi a primeira vez que eu o vi e nunca mais lhe esqueci o rosto. Claro está que a vergonha de não termos terminado o combate não tinha espaço para vingar no seio de tão vil turma e as horas seguintes foram plenas de elogios retumbantes: “Grande esquerda!”; seguido de “Fantástica direita!”; depois o “Parecias o Undertaker!”; e por fim o mítico “Aquele carrinho foi melhor do que o do Paulinho Santos!” O pior é que estava para vir, e depressa! Foi logo no Domingo seguinte. Nesse tempo, cometia os pecados na escola e confessava-os na missa dominical, onde era também acólito. E, claro, o Armando também. No preciso momento que se seguia ao “Ide em paz”, lá ia eu rua fora quando vejo a figura, risonha, do pacificador da minha disputa semanal. Fiquei boquiaberto! Ele? Aqui? Vim a saber minutos mais tarde que era natural de Famalicão e ouvi pela primeira vez o seu nome: António José Gouveia Dias de Almeida ou, num registo muito mais familiar e amigável, o Professor Tó Zé. Como é óbvio, para um puto com aquela idade, era preciso evitar conversas para que ninguém viesse a saber da tarde de violência, mas o seu nome nunca mais desapareceu da minha memória. Ainda para mais depois de saber da extrema afeição que ele sempre teve pela minha família materna.                     

2. E foi já no meu décimo segundo ano, em 1999, que voltei a falar deste caso com o meu, então, Professor de Português. Ele riu-se divertidíssimo, por certo do número incontável de disputas que tivera de serenar nos anos anteriores e que faziam com que o nosso “combate da década” não passasse de um entre muitos que ele presenciou. Sempre profissional e tremendamente exigente, ensinou literatura e língua como quem se deleita com o néctar dos deuses; aconselhou leituras que nos faziam crescer o intelecto; e formou homens e mulheres que tinham como fundamento principal uma contínua humanidade. Quando terminou o ano, superei a sua expectativa no exame nacional e, também culpa dele, decidi dedicar-me às letras portuguesas. O certo é que me tornei seu amigo e seu admirador, sempre interessado num seu conselho e em mais um dos seus ensinamentos. Por causa desta amizade crescente, lembro-me da primeira vez em que, numas férias de Verão em Famalicão, em 2001 ou 2002, eu e o meu irmão Sérgio, também seu aluno, recebemos um convite para tomar café por parte do saudoso Professor Hipólito, pai do Professor Tó Zé. Passámos então a ser conhecidos como “os amigos do Tó Zé”! E o certo é que durante alguns anos, nas férias de Verão em que trabalhávamos nos bombeiros, era ponto assente que o café semanal era entre o pai e os amigos do Tó Zé. E foi muito bom viver esses dias, até que os tempos tristes que correm como um vento tempestuoso nos roubaram, primeiro ao Professor Tó Zé e, um par de anos mais tarde, a mim, estas companhias tão agradáveis para ambos.                  

3. Mas toda esta recordação vem a propósito da recente consagração deste meu sincero amigo como o vencedor do Prémio Café Mondego 2011, criado em boa hora por Américo Rodrigues. É um pequeno prémio, sem direito a jornais ou televisões, mas é o único que olha para o trabalho real dos premiados e para a sua constituição moral e ética, não embandeirando em propósitos políticos, como o fazem e fizeram outros entregues recentemente pela Guarda. Ao Professor Tó Zé, que eu saiba, é este o único reconhecimento público que a nossa cidade já lhe prestou, apesar da intensa e preciosa colaboração que este homem lhe tem dedicado ao longo dos anos. Na sua aldeia natal, o panorama é o mesmo e nenhuma entidade o parece querer reconhecer. A mim, como certamente a outros, tem ele dado alento, tempo e saber, nunca exigindo nada em troca. Por tudo isto e pela honesta emoção com que sempre se dedica à vida, tenho que deixar ao Senhor Comendador da Ordem da Instrução Pública as minhas palavras de apreço num tom emocionado: “Parabéns, Professor Tó Zé!”         

Guarda, 06 de Fevereiro de 2012
Daniel António Neto Rocha