sábado, setembro 28, 2013

Acordos na Guarda? #16 - nota quase final (actualizado)

Há, nestas eleições na cidade da Guarda, alguns factos curiosos que não foram referidos ou, se o foram, devem ter sido ditos baixinho não fosse o diabo tecê-las. 
Um desses factos é o caso da participação massiva de independentes nestas eleições, alguns dos quais foram desenterrados propositadamente para estas eleições e outros entenderam ser a altura certa para se declararem, fervorosamente, à virgem não partidária. Dentro destes, há o caso daqueles que desde sempre ligados aos partidos tiveram alguma participação no debate público, expondo, no entanto, ideias dos partidos. Foi curioso ouvi-los e vê-los a dizerem quase a mesma coisa sobre os "outros" que, já não sendo os "outros" iniciais, passaram a ser os "outros" actuais e, possivelmente, não serão os "outros" futuros, pois os "outros" actuais podem bem vir a ser outra vez os "outros" iniciais. Mas... vejamos outros filmes! Depois destes há os que descobriram que existia participação pública e que era salutar a exposição pública das suas ideias com estas eleições. Pena que só o tenham feito com a pretensão de alcançar o "tacho" dourado que ferve as águas mornas da preguiça. Pena, também, que estes, agora, se sintam mal por ter terminado o debate público que iniciaram. Mas... e se, agora, começarem a trazer para a praça pública as ideias independentes que, ao que parece, tanta e tão fecunda discussão geraram? A opinião pública é um dever de todos os cidadãos, sim, mesmo sem estarmos em alturas de eleições, sabiam?
Um dos outros factos, e que me preocupa fortemente, é o pouco investimento político que se fez ao nível das listas naquela que todos os candidatos principais reconhecem ser uma das principais áreas de investimento concelhio (eu diria mesmo a mais importante!): a cultura! Observadas as listas dos dois principais candidatos (Amaro e Igreja) é curiosa a posição daquele que é o candidato a vereador mais relacionado com a cultura: quinto lugar! O Victor Amaral, o meu conterrâneo que me surpreendeu ao apresentar-se nestas eleições, surge num lugar que (dadas as sondagens) não lhe permitirá entrar na vereação. No lado do PS não consigo perceber (honestamente!) quem pode representar a cultura. Logo, parece-me que estamos muito mal, meus senhores, quando deixam de lado a área que representa o potencial diferenciador e enriquecedor que a Guarda adquiriu ao longo de vários anos. Mas... ainda temos o Mário Martins, da CDU, que pode ser a voz que traga essa marca.
Por fim, deixem-me dizer que estas são as eleições que apresentam mais candidatos dos quais não conhecemos uma qualquer ideia ou um qualquer assumir de opinião na praça pública (salvaguardando os cabeças de lista, claro!). Dado esse facto, é difícil perceber o que trarão à Guarda os novos protagonistas políticos.

P.S. - Continuo a pensar que a vitória, dadas as últimas ocorrências, será do PS com uma pequena vantagem sobre o PSD/CDS-PP (talvez a vantagem mais escassa de sempre). A CDU será, para mim, a força política que virá em terceiro lugar.  

P.S. 2 - Há muitas interpretações a fazer sobre este meu post e é por causa de uma dessas interpretações feita por um amigo (que me foi comunicada e com a qual concordo em parte) que quero aqui fazer uma pequena nota: não fiz aqui qualquer comentário sobre a importância cultural dos cabeças de lista, porque, na minha modesta opinião, não os vi como elementos que podem tomar para si a pasta da cultura. No entanto, concordei com a interpretação e, alargando o meu raciocínio aos cabeças de lista, é óbvio que o PS terá feito, através da experiência de Igreja como vereador da cultura de anteriores elencos camarários, um investimento forte (caso ele assuma mesmo a pasta da cultura) naquela que é a área principal para o desenvolvimento do concelho e da região. Sim, penso que este esclarecimento fica bem para que as ideias que vão sendo lidas não sejam mal entendidas!  

quinta-feira, setembro 26, 2013

terça-feira, setembro 24, 2013

Hospital privado ajuda bombeiros!

A resposta foi rápida e meritória. 

IdealMed Unidade Hospitalar de Coimbra Boa tarde Daniel António Neto Rocha, o post continua visível na nossa página, publicado no dia 31 de Agosto. A cronologia do Facebook por vezes não permite visualizar imediatamente todos os posts, mas se pesquisar o mês de Agosto, o referido post surge, da mesma forma que foi publicado. A mensagem da IDEALMED mantém-se, tal como anunciado nesse mesmo post. Obrigado

Fui procurar e aqui está

O meu agradecimento e o meu pedido de desculpa por ter, em parte, julgado mal a empresa hospitalar!

Hospital privado ajudava bombeiros e agora já não?




É daquelas "coisas" que acontecem e que podem ser ou não verdade. No passado dia 31 de Agosto um hospital privado, IdealMed Unidade Hospitalar de Coimbra, lançou uma campanha onde, palavras deles:

"Numa iniciativa de solidariedade para com os Soldados da Paz, a IDEALMED irá entregar cinco cêntimos por cada novo like na nossa página de Facebook. A IDEALMED acresce à presente Campanha a oferta de todos os serviços de saúde necessários à recuperação de bombeiros feridos em serviço."

Curiosamente, hoje voltei à página do facebook deste hospital, onde foi feito este anúncio, e já não encontrei nada! Então fiz uma pesquisa e encontrei (valha-nos esta internet que tudo guarda) este sítio que me provou que eu não estava maluco e em que alguém responsável responde a alguém com estas palavras:

[IdealMed Unidade Hospitalar de Coimbra] - Boa tarde P F C. Convidamo-lo a ver posts anteriores onde evidenciamos todo o nosso compromisso com diferentes causas sociais. A Idealmed considera sua obrigação a participação civica em diferentes iniciativas, sendo justa toda e qualquer ajuda que possamos aportar aos nossos Soldados da Paz. Assumimos publicamente a oferta dos tratamentos necessários à recuperação dos Bombeiros feridos, bem como a ajuda financeira como contributo para a melhoria possivel das condições de trabalho. Acreditamos que Todos juntos poderemos fazer a diferença, ajudando de forma genuina quem necessita, aproveitando para convidar todas as outras instituições, publicas e privadas, a fazerem o mesmo. Obrigado.

Não quero fazer más interpretações, mas espero, sinceramente, que esta empresa não tenha voltado com a palavra atrás. Já fiz um pedido de esclarecimento na página e darei eco dele. Mas vou ficar muito atento e, caso seja necessário, farei com que esta possível mentira chegue ao sítio certo!
Peço-vos também que estejam atentos a este caso.

Repentes #36 - a humanidade portuguesa

Bem sei que muitas das acções são pequenas gotas de água num oceano de necessidades por parte de quem, de facto, fica dependente de algo, mas é de louvar os movimentos de apoio a quem de um momento para o outro ficou em dificuldades. Daí que fico muito esperançoso num futuro melhor quando vejo que nos homens e mulheres comuns de Portugal existe um espírito de humanidade que os leva a ajudar o outro. Neste caso, é muito bom reparar nos movimentos espontâneos que vão surgindo e que pretendem de forma desinteressada ajudar bombeiros que ficaram feridos durante os vários combates a incêndios. É um gesto que não tem valor, pois é superior e extremamente digno! Gosto muito de ver que há gente preocupada com quem trabalha para defender as pessoas de perigos extremos e que durante o ano se preocupa sempre com a defesa e o socorro de quem precisa! Da minha parte, um grande obrigado a todos!

Acordos na Guarda? #15 - ainda o sentido independente

Nunca ouvi as palavras "independente" e "independência" tão mal aplicadas e utilizadas como nos dias de hoje. Talvez o pessoal que as tem usado pense que significam aquilo que o 25 de Abril nos trouxe e que nem é preciso consultar o dicionário. Mas, num país que tem Alberto João Jardim como paladino dos valores de Abril (como há alguns dias se atreveu a anunciar aos berros em mais um dos momentos "zen" madeirenses), nem a semântica se safa de ser enxovalhada em praça pública.
E não é que uma leitura por alguns sítios que fazem questão de se dizerem independentes prova que de independência só devem ter o servidor onde têm alojado o blogue? É que é fácil, e em tempo "record", ganhar "clientes" num blogue que destila veneno e que foi criado com o propósito de esconder quem por lá escreve, mas a política na Guarda já merecia que todos nós, que a comentamos (mal ou bem), mostrássemos a cara e obrigássemos todos os outros que comentam a fazer o mesmo. Bem sei que isso afasta as multidões, mas eleva a discussão. E é isso que todos queremos!

segunda-feira, setembro 23, 2013

Guarda, na 6.ª: cidadãos com nome à mesa do "Café Mondego"


Gostei muito de estar sentado com estes dois homens da Guarda numa sessão que foi plena de cidadania. Sim, porque a cidadania não é só para eleger gentes e para apregoar como se de um rega-bofe se trate. A cidadania é usar da palavra para participar activamente todos os dias do ano. E esta foto representa um pouco da cidadania que o Américo praticou durante sete anos. A foto é da Élia Fernandes e ilustra o momento em que o professor Mota da Romana fazia a apresentação do conteúdo deste "Café Mondego: uma antologia". 
Convido-vos a ler e a dizerem de vossa justiça se este livro de Américo Rodrigues não é um excelente projecto de cidade para qualquer ponto do país? Sim, com as devidas adaptações, pois o património não é transferível. Mas leiam e vejam como pelo interior do país há gente com uma capacidade de pensar o futuro de forma sustentada e com a cultura como parceiro preferencial. Para além disso, como se fosse já pouco, terão também acesso a literatura de qualidade.
A sessão foi concorrida e gostei de ver pessoas de vários quadrantes a assistir, pois isso só veio dar mais sentido à palavra cidadania.

A força dos homens (2)

Já temos, afinal, dois dos nossos mais perto de casa. Ainda não tinha esta boa notícia, mas fui informado dela pouco tempo depois do post anterior. Espero voltar a ser surpreendido desta forma nos próximos tempos!
Estamos todos por aqui a esperar o seu regresso a casa!

A força dos homens

Há muitos momentos de dúvida entre nós, mas sabemos também que, passo a passo, a força que manda reunir os homens em torno da sua casa é grande. Um deles já se aproximou de nós - o que é uma boa notícia -, agora esperamos ansiosamente que os restantes venham também bem e com a mesma força e brilho nos olhos. 
Estamos por aqui a esperar pelo seu regresso!

quinta-feira, setembro 19, 2013

Pensalamentos #122

enegrecer
noite dentro
em paz com o incerto

Guarda: "Café Mondego" na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço


É já amanhã que o "Café Mondego" vai abrir as suas páginas. Depois de ser um local de conversas e de copos, passou para o mundo digital como um dos blogues mais lidos e tem agora a sua realização enquanto livro. Américo Rodrigues escreveu milhares de textos durante cerca de 7 anos e vai agora apresentar uma selecção, feita por mim, desses seus textos. O que nos revela este "novo" "Café Mondego"? Amanhã todos ficarão a saber.


Dia 20 de Setembro
18 horas
Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço
Lançamento de “Café Mondego: uma antologia” de Américo Rodrigues
Apresentação por José Manuel Mota da Romana
Leituras por Vasco Queiroz e Antónia Terrinha

Organização: Bosq-íman:os
 

quarta-feira, setembro 18, 2013

Acordos na Guarda? #14 - um pouco de carma constitucional? (corrigido)

Sim, o karma inglês tem um correspondente na língua portuguesa - carma. E é esta palavra que eu vejo como transportadora de sentido nestas eleições. Talvez a intenção fosse boa e pudesse estar cheia de boas vontades, mas a forma, senhores, e o ardor como alguns tentam impor a sua "mão de ferro" por vezes falha e, como diz a história do lobo com pele de cordeiro, no fim acaba tudo por redundar num fim com contornos trágicos mas, na minha opinião, algo justo. 
Agora, Igreja, Amaro, Martins, Loureiro ou Espírito Santo? Continuo a dizer que a dois (laranja e rosa) o rosa tem mais encanto e permite que a mole familiar da cidade não se perca. Daí que os seres independentes com cartão rosa (parece que há gente que se rebelou contra o partido mas continua a pensar que pertence àqueles contra os quais se rebelou) não vão perder a hipótese de conseguir começar por eventuais migalhas e passar depois ao naco mais suculento. Já Amaro terá perdido, na minha opinião, a hipótese de ganhar a Câmara, pois é, numa escala de simpatia sombria, o tipo mais odiado e, ao que sei, terá uns conselheiros que tratarão de lhe provocar a queda (lembremo-nos de Viriato e de César!). 
Voto útil? Talvez em Martins, o independente que sobra e que encabeça a lista do PCP. Será, a ser eleito como vereador, uma voz construtiva e preocupada com o futuro sustentável do concelho, sendo, no entanto, um incómodo para alguns bem assentes da cidade. Loureiro poderá beneficiar de alguns votos, mas terá de se contentar com alguns lugares na Assembleia. Espírito Santo igual.

Lições a retirar: em todos os processos e grupos é tão importante o líder como a equipa ou equipas que o rodeiam, logo as pancadinhas nas costas não servem para nada se não houver um verdadeiro e rigoroso trabalho em todas as vertentes (até nas que parecem mais simples!).


Nota: Não foi por mal que errei no nome de Espírito Santo. Obrigado a quem me alertou! 

Um Projecto apresenta-se e pede um pouco de vós




O Projecto Sérgio Rocha foi convidado para se apresentar na recente homenagem que a RTP fez aos bombeiros portugueses. A Marta e eu estivemos em Lisboa em representação do Projecto e em representação dos nossos amigos que continuam hospitalizados. Mais do que dar-vos a conhecer um pouco mais do Projecto (vejam a partir das 2h04m35s), a quem o não conhece, peço-vos, mais uma vez, que reforcem as orações pelos nossos homens. Eles precisam de toda a nossa força e fé.

sábado, setembro 14, 2013

Aos nossos homens

Estamos ainda no início do caminho onde a escuridão nos obrigou a entrar. As nossas esperanças e a nossa fé são fortes, tal como vós estais a provar ser. Não temos qualquer dúvida da força que vós, nessa vossa difícil batalha, estais a ter para voltar a estas vossas casas que vos esperam ansiosas. E, sim, como dizia há dias a Jéssica, ninguém disse que ia ser fácil, mas eu atrevo-me a dizer que também não merecíamos que fosse tão difícil. Enfim... a vida só é difícil para aqueles que têm a capacidade de se superarem a todo o instante e para aqueles que fazem a diferença no coração dos que os rodeiam. É por isso que vos escrevo este pequeno desabafo. O amanhã que aqui vos espera está cheio de incertezas e nós também não temos certezas. Ou melhor, temos a certeza de vos querer aqui, em casa, junto de nós e a sorrir. Quanto ao resto, os novos caminhos ou a continuação de velhos caminhos, não interessam para agora. Queremos que regressem a casa, que cumpram a missão e que voltem para a finalizarem. Nós estamos ansiosos por vos ter de volta e todos os dias queremos que as notícias cheguem. Não de forma rápida, mas de forma segura e com as vossas melhorias. Vós tendes força e nós sabemos isso. Nós faremos tudo por vós! Contai com isso! Força, malta! Força, Valter! Força, Ti Albano! Força, Quim! Força, meu jovem Filipe! É para estes momentos difíceis que são feitos os grandes homens. E vós sois grandes homens!

quarta-feira, setembro 11, 2013

Precisam de ajuda?


Sim, precisam de ajuda para questões relacionadas com textos? 


O nome «ESCRITOR "FREELANCER"» parece apontar unicamente para a realização de trabalhos de "grande envergadura", por exemplo a escrita de livros. Mas não é só isso que faço. Aliás, essa visão deste trabalho é, talvez, a que terá menor atenção. 



Segue uma listagem com trabalhos tipo que posso fazer: 

- textos curtos, médios ou longos (para os mais diversos fins, basta dizerem); 

- textos artísticos (visando a ligação ao design); 

- escrita de slogan e textos argumentativos que o acompanhem; 

- correcção de textos; 

- trabalho de edição; 

- outros pedidos. 





Todas as questões (perguntas sobre os tipos de texto a trabalhar e pedidos de orçamento) deverão ser enviadas para danielroc@gmail.com





(Atenção: 

Haverá o máximo sigilo no tratamento de quaisquer textos ou questões, nunca se revelando qualquer contacto existente.)

Momentos em imagem #18 - 12 anos


Temos muito para aprender. Há 12 anos um ataque terrorista (tenha lá sido o autor o que foi acusado ou outro que continua impune e sorridente) acordou a América e os noticiários por todo o mundo. Hoje, 12 anos passados, continuam a olhar para trás e a tirar ensinamentos desta tragédia, honrando, de forma honesta, a memória dos que ali perderam a vida.
Não é tempo de se aprender com os erros também em Portugal?

terça-feira, setembro 10, 2013

Pensalamentos #121 - ácido

reparar
de forma una e concreta
que o mal do mundo
e das pessoas
não é que lhe dêem a mão
mas, sim, que 
lhe não ofereçam 
dinheiros 

Li: Acidente Poético Fatal, de Américo Rodrigues

É já um texto antigo, ou melhor, um texto com cerca de um ano, mas com o fim do blogue "Café Mondego" ficou escondido nas páginas da revista cultural Praça Velha, n.º 31. Com a aproximação do lançamento do novo livro do Américo Rodrigues, decidi resgatar esta minha recensão para o formato digital. Esta que lêem é a versão alargada da recensão que podem ler na já citada edição da revista guardense.



A “palavra essencial” esquecida: acidente poético fatal, de Américo Rodrigues

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos
frente ao precipício
e cair verticalmente no vício 
(Mário Cesariny)

Do autor, Américo Rodrigues (n. 1961), não haverá pouco a dizer. É um nome incontornável da história cultural recente (dos anos 80 à actualidade) da cidade da Guarda e será uma referência nacional da literatura e das artes em geral. Podemos chamar-lhe poeta, actor, dramaturgo, encenador, cronista ou, na nossa opinião, performer. Todos estes nomes lhe estão ligados umbilicalmente e todos lhe assentam na perfeição, basta observar com atenção a sua longa produção artística. O seu trajecto enquanto poeta é já longo e a sua lista de publicações é extensa - Na nuca (1982), Lá fora: o segredo (1986), A estreia de outro gesto (1989), Património de afectos (1995), Vir ao nascedoiro e outras histórias (1996), Instante exacto (1997), Despertar do funâmbulo (2000), O mundo dos outros (2000), Até o anjo é da Guarda (2000), Panfleto contra a Guarda (2002), Uma pedra na mão (2002), Obra  completa – revista e aumentada (2002), O mal – a incrível estória do homem-macaco-português (2003), A tremenda importância do kazoo na evolução da consciência humana (2003), Escatologia (2003), Os nomes da terra (2003), A fábrica de sais de rádio do Barracão (2005), Aorta Tocante (2005), O céu da boca (2008), Escrevo-Risco (2009) e Cicatriz:ando (2009) -, compreendendo obras que vão do “vulgar” livro até aos objectos poéticos nas suas mais diversas realizações.
Das influências do autor saberemos um pouco mais conforme o conhecimento que tivermos das suas próprias produções. Se atentarmos neste seu percurso artístico e poético, verificamos que recebe várias influências teatrais e performativas, nomeadamente no que diz respeito ao trabalho experimental com a voz ao nível do teatro (é importante destacar o estágio que efectuou com Catherine Dasté, em Paris, no ano de 1979). Este trabalho com a voz é completamente inovador no Portugal dos anos 80 e dá-lhe, desde aí até hoje, o estatuto de único poeta sonoro português e um dos principais elementos do movimento poético experimental dos últimos trinta anos. Mas interessa pressentir não só as influências experimentais. Também ao nível das influências poéticas mais formais, a sua capacidade de absorção rege-se pelo caminho mais marginal (em jeito de confissão, diz o autor que a “culpa” foi de um bibliotecário que trabalhava na antiga biblioteca itinerante – a mítica carrinha vermelha da Gulbenkian – que lhe aconselhava sempre a leitura de poetas como Herberto Helder, Mário Cesariny, Ramos Rosa, entre outros). A sua poesia não segue a lógica dos poetas presencistas ou neo-realistas, apesar de, em alguns momentos deste livro que analisamos, se pressentirem algumas dessas temáticas relacionadas com a denúncia do autoritarismo e da injustiça social (no que ao neo-realismo diz respeito), e duma presença constante do traço original (tão querido aos presencistas). É, sim, uma poesia de influência surrealista, mergulhada na ideia que é lançada por Mário Cesariny no artigo “Mensagem e ilusão do acontecimento surrealista”, inscrito no n.º 1 da Revista Pirâmide: “Também porque o surrealismo se inscreve numa zona de conhecimento que mesmo nos pontos globais do seu percurso (…) será sempre parcela e nunca soma, pois das muitas coisas com que tem a ver tem a ver sobretudo com o amor do futuro, é prova de inquirição que cabe a cada homem para continuação de novo homem que vem.” Mas nem só de surrealismo se reveste, pois o espírito do movimento Dada (consubstanciado no espírito reaccionário perante injustiças sociais protagonizadas pela sociedade burguesa e pelo seu sistema racional) está presente como o “ruído” incómodo que a sua poesia cria à sociedade que se rege pela criação de um status quo que quer permanecer intocável. Estas, últimas, serão as duas principais influências de Américo Rodrigues ao nível da poesia.
Algumas questões já começaram a ser afloradas nas linhas anteriores, sendo que este acidente poético fatal retoma algumas das influências já referidas, mas (e lá vem o cunho de originalidade que “herdou”, talvez, de Almada Negreiros) não é só isso. Em acidente poético fatal, Américo Rodrigues apresenta aquilo a que poderemos chamar poesia performativa, sabendo nós de antemão que é um termo vago e, possivelmente, impreciso ao nível da tão necessária objectividade da crítica de teor académico. Voltaremos a ele no final. O título é sugestivo e aposta desde logo num recurso de enriquecimento textual – a adjectivação – que cria na expressão uma curiosa relação de dependência entre o adjectivo “poético” e o nome “acidente” que pode desde logo ser lido pelo absurdo criativo que proporciona. Como sabemos, no campo da poesia não existem acidentes fatais. Pode haver imprecisões, más escolhas, maus poemas, maus autores ou más críticas, mas nunca se revelam fatais (no sentido ontogénico do termo). Logo, a escolha deste título aposta na conjugação da estranheza e da sua utilidade para a criação de universos simbólicos e esteticamente ricos, e revela-se tremendamente certeira. Já ao nível das relações gramaticais entre os vários constituintes do título, a escolha foi ainda mais acertada. Se tentarmos encontrar uma tabela que analise a importância das três palavras na expressão que se constitui como título, poderíamos considerar que o centro do grupo nominal de que a expressão se reveste é, de facto, um adjectivo. Isto, como sabemos, é um erro ao nível da análise gramatical. Pensamos que Américo Rodrigues teve consciência disso no poema que empresta o título ao livro (pág. 48):

Declaração   
Para os devidos
efeitos
(e feitos)
declaro que em caso
de acidente poético fatal
deixo
dou
doo
(…)

Como se percebe, através da leitura atenta de todo o poema, o poeta dá-nos a impressão de estar a comunicar os seus últimos desejos testamentários, mas consciente de que o faz apenas com elementos não usuais no tipo de texto que normalmente serve de testamento. Ao nível da aproximação estética deste tipo de estratégia poética a outros poetas portugueses, sabemos que a poesia de Herberto Helder – curiosamente um dos agraciados com os bens testamentários – também opta por este jogo de intersecção de planos diferenciados, ou, na expressão de Maria Lúcia Dal Farra, pela opção dos “campos semânticos cruzados”. Convém referir-se que esta estratégia, colada a Herberto Helder, é utilizada desde o primeiro modernismo português (por exemplo, “Chuva oblíqua” de Fernando Pessoa) e por todos os poetas e demais artistas que usaram o surrealismo como ponto de origem da sua criação artística. Depois desta primeira incursão pelo texto, e usando-a ainda, pensamos que é importante referir e estar atento à forma como o poeta trata o tema da morte. Neste poema (“Declaração”) encontramos um testamento, que alude à organização do homem perante a inevitabilidade da morte. Noutros poemas a morte surge associada ao suicídio (“Os rapazes”, pág. 6), ao anúncio da morte ou da celebração dos mortos (“Os mortos”, pág. 10), aos epitáfios que hão-de encimar as pedras tumulares (“Epitáfios”, pág.s 13 e 14), e outros (principalmente em “Poeta Local” (pág. 17), “Sete telefonemas” (pág. 40) e “Casas” (pág. 57). Não pensemos no entanto que aqui a morte é vista de forma literal, esperando a existência de uma encenação romântica. A morte é antes um motivo de sarcasmo, de crítica ou de sátira, perante as motivações de escrita do poema. O grande tema deste acidente poético fatal, porém, é outro: o humor, por vezes negro, que passa pelo conjunto de poemas e que, de forma satírica ou sarcástica, aponta para a forma crítica como Américo Rodrigues olha o mundo que o rodeia. Como exemplo de crítica social e, também, moral, leia-se (pág. 23)

Projecto
Dão-me papas
Duas vezes por dia
Dão-me remédios
Todos os dias
(…)

Leiam-se ainda “Vêm” (pág. 12), “Ninho” (pág. 8), “A entrega” (pág. 18) e “Não Há” (pág. 54), entre outros. Podemos verificar que existe neste ponto a aproximação ao Cesariny da Nobilíssima Visão, onde o humor seco e crítico se expande de uma forma quase invisível (leia-se o poema “Pastelaria”). Numa característica que tem como compromisso o humor crítico, verificamos outra das estratégias que foi também cara aos surrealistas e que Américo Rodrigues utiliza de forma bastante acutilante: os animais (seres irracionais) como representação de uma realidade criticável e negativa (pág. 5):

O pequeno boi
O pequeno boi
cinzento
claro
ruminando.
(…)

A este nível, verificamos que existe uma correspondência de utilizações de figuras animalescas como forma de intensificar sentidos, regra geral pejorativos, com outro dos grandes autores portugueses que tiveram uma passagem pelo surrealismo: Alexandre O’Neill. Como exemplos da obra de O’Neill, leiam-se “Galo de Barcelos” e “Made in Portugal”. Na obra em análise, verifiquem-se também “Poemas da transumância” (pág. 42) e “Visita guiada” (pág. 27), onde a utilização dos animais como forma de crítica é efectuada de forma singular.
Poderíamos, ainda, aqui salientar um conjunto de estratégias que demonstram bem a grande riqueza e o enorme valor literário deste pequeno acidente poético fatal. No entanto, deixaremos apenas, visto que importa aguçar o apetite dos potenciais leitores e não impor uma leitura, algumas pistas de leitura que poderão ajudar à construção de horizontes significativos individuais. Atente-se então nas várias imagens visuais criadas com mestria, observem-se algumas construções e desconstruções de palavras que soam a música, oiçam-se alguns aspectos fónicos que lembram os trava-línguas, visualize-se a exploração da poesia experimental e compreenda-se a utilização do calão como catarse da emoção violenta (quase um grito dadaísta).
Existem ainda duas pequenas referências que fazem com que a este livro de Américo Rodrigues possa ser visto como uma obra universal: a primeira demonstra-nos essa validade universal da obra e a segunda dá a explicação do termo poesia performativa. Em primeiro lugar, Carl-Gustav Bjurström, tradutor de Lars Gustafsson para a língua francesa, no prefácio à obra A morte de um apicultor, destaca uma estratégia discursiva deste escritor sueco a que dá o nome de “trompe l’oeil”. Este termo, numa tradução muito livre e muito pouco literal, significa “engano consciente” e consiste na apresentação de elementos que são demasiado estranhos e acutilantes para não serem falsos. Pois bem, Américo Rodrigues utiliza, neste livro, esta estratégia de uma forma extremamente bem conseguida (pág. 16):     

Abadia
Na abadia franciscana de Monteveglio
Há um sistema inovador
(…)

Aqui, o “trompe l’oeil” surge nos versos “eu próprio pedi que Frei Giovanni della Annunziata/ ali me confessasse.” Estaria o poeta a tentar redimir-se da imagem ridícula que cola às vetustas catedrais católicas do poema “Ninho”, que parece estar colocado, de forma estratégica, três páginas atrás? A estranheza apodera-se de nós no verso referido, mas é resolvido logo nos versos que o procedem. Depois esclarece por completo a estranheza no poema “Atendimento automático” que não é mais do que uma brilhante resolução da questão com que o ser humano religioso se interroga sempre que é atingido por uma desgraça: mas onde é que estava deus? Desta forma, este “trompe l’oeil” vem adensar ainda mais a imagem iconoclasta deste sujeito poético, pois são utilizadas as instituições de toda a ordem como elementos humorísticos através da ironia e do sarcasmo. Em segundo lugar, e para elucidar a dúvida que nos acompanha desde o início, pensamos que este livro que Américo Rodrigues nos apresenta é um excelente exemplo da poesia performativa porque se situa no centro da viagem entre a poesia sonora e a poesia lírica (iniciada a chegada a esta poesia mais “literal” a partir da experiência poética que é a obra Cicatriz:ando), contendo em doses bem medidas o melhor das duas: a forma rítmica e musicada de uma, e o conteúdo simbólico da outra.     
            Por fim, convém salientar um “pequeno pormenor” que tem grande importância para o conjunto da obra de Américo Rodrigues. Esperava-se que o final do livro fosse muito corrosivo e de um humor tremendamente sarcástico, visto que por todo o livro é esse o ingrediente principal. No entanto, e de forma surpreendente, o poeta oferece-nos uma ponte de escape simbólica para uma poesia de temática mais intimista. Assim, guarda os poemas “Insónia” (pág. 58) e “Não me acordes” (pág. 59) para fazer uma transferência de planos entre este acidente poético fatal e a obra seguinte, que terá como pontos de partida o “sítio húmido/ da noite” e os “interstícios da pele”, ou seja, a “palavra essencial” recuperada.  

Guarda, 05 de Maio de 2012
Daniel António Neto Rocha

(Versão mais curta In: Revista Praça Velha n.º 31. – Guarda: NAC/ CMG, Junho de 2012. – p. 201 a 205.)

sábado, setembro 07, 2013

Pensalamentos emprestados #12

"Há algo de atraente num homem sensível à agonia da existência."

(personagem Mónica, em "Para Roma com Amor" de Woody Allen) 

sexta-feira, setembro 06, 2013

Promessa pelos nossos homens

Há sete anos que tenho tentado ajudar a evitar o que nos dias que correm parece ser assunto inevitável! Hoje, mais uma vez este ano, fui apanhado de surpresa e admito que chorei. Há coisas que trato como meros adereços que são. Mas a vida... essa não! E hoje mais famílias estão tristes e sem razão para continuarem a viver! Outras estão com o coração nas mãos, esperando que o futuro as ajude a trazer os seus para casa.
Eu fiz hoje uma promessa! Não a vou aqui partilhar, mas tem como pressuposto o regresso seguro de todos os meus amigos e camaradas a casa. 
No dia em que isso acontecer, levanto-me e ando. De um sítio até outro sem grandes pausas, tal como fazemos sempre que existe um incêndio para apagar. No dia em que possa cumprir esta promessa, direi do que se trata.  

Acordos na Guarda? #13 - o enigma

É uma das questões que a decisão do Constitucional traz para a baila no dia de hoje e que, tenho a certeza disto, poderá ser determinante no desfecho final das eleições de 29 de Setembro. Vamos por partes. O Tribunal Constitucional decidiu (na minha opinião mal, por motivos que envolvem, entre outros, o abuso daquilo a que nos negócios se chama de "posição dominante") que os autarcas de outros concelhos possam candidatar-se a concelhos vizinhos. Logo, Álvaro Amaro é, agora, um candidato legítimo e com legítimas ambições. Portanto, agora acaba-se este problema (pois neste momento já não há o problema da interpretação da lei que tanta e tanta tinta fez correr). 
Agora, o novo e esperado problema está em saber como é que o mesmo Tribunal vai resolver a questão das listas de "A Guarda Primeiro", pois poderá ser determinante para o desfecho final das eleições a possibilidade ou não de esta lista estar a votação. Passo a explicar ou a tentar fazer uma breve análise que poderá ser tudo menos acertada. Caso o tribunal permita a ida às eleições de "A Guarda Primeiro" haverá uma dispersão de voto que já vimos que será favorável à candidatura de Álvaro Amaro, uma vez que a sua posição saiu reforçada com esta decisão que é coerente com aquilo que ele diz desde o início da pré-campanha. Caso o tribunal não permita essa ida às eleições de "A Guarda Primeiro" que vai sair reforçado é José Igreja e o seu Partido Socialista (PS) que poderão ter para si aquilo a que eu chamo "os votos da vingança menor e os votos do mal-o-menos". Claro está que nesta última versão assistiremos ao regresso dos desavindos ao PS, talvez com o "rabo entre as pernas" e com aquela típica versão muito portuguesa do "eu sempre estive deste lado, fui foi ver o que os outros faziam para te dizer". 
Seja lá como for a história, aqui estaremos para ver o seu desenlace. Uma ou duas certezas, porém, ficam desta decisão do Tribunal Constitucional: primeira, a três a vitória é laranja; segunda, a dois ficaremos pelo rosa. Esta é, pelo menos, a minha leitura dos dias hoje.

quarta-feira, setembro 04, 2013

Acordos na Guarda? #12 - Guarda ilegal

Há pequenos pormenores que fazem a diferença nesta coisa da política e que fazem como cidadão eleitores, tal como eu, acreditem nos políticos de partido ou de listas independentes. Uma delas é a transparência e a clareza da intenção com que se candidatam (o que, digamos, ninguém consegue trazer para a campanha, pois é sempre um jogo de oportunidades e de sombras). Outra é o conjunto de apoiantes e de gentes que rodeiam as candidaturas sem mostrarem que estão ali, mas que se vai notando que estão por pequenos elementos que fazem a interligação entre "famílias". Outra ainda é a forma honesta como conseguem, ou não, obter aquilo que a democracia (não me apetecendo fazer qualquer alusão a este nome tão abstracto e tão difícil de perceber) prevê, por exemplo a recolha de assinaturas. Neste último campo parece-me que devemos estar conscientes de que há formas legítimas de recolher assinaturas (por exemplo, quando explicamos às pessoas que as assinaturas servem para x e elas acedem e assinam) e outras que não são aceitáveis (por exemplo, pedir a alguém que passe nomes das listas eleitorais e que assine por esses mesmos nomes). Não é democrático aquilo que se consegue cometendo um crime, mas isso é só um pormenor, não é?

segunda-feira, setembro 02, 2013

Pensalamentos #120 - conta gotas

seguir
estrondosamente
com a calma vagueante
de gotas de sangue
a flutuar pela vida

Momentos em imagem #17 - os nossos homens


O Tiago Anjos criou e partilhou esta imagem. Eu faço-a chegar até vós. Estes são os nossos homens que lutam para voltar para junto das suas famílias e de nós. Nós estamos à espera deles e todas as nossas orações são por eles. Volto a pedir-vos, a vós, boas energias e um lugar para eles nas vossas orações.

sexta-feira, agosto 30, 2013

Pensalamentos #119 - olhar



Percorrer o fundo dos infernos 
com lágrimas no rosto
para vos trazer sãos e salvos
à casa merecida.

Pequeno pedido a quem lê este blogue


Não vos quero gastar o tempo ou sequer exigir algo que não esteja na vossa vontade, mas gostava de vos pedir que por estes dias incluíssem nas vossas orações os meus quatro amigos e camaradas bombeiros que estão magoados. Obrigado!

terça-feira, agosto 27, 2013

segunda-feira, agosto 26, 2013

Acordos na Guarda? #11 - golpe de teatro ou trágedia?

E aí está mais uma "acha" para a fogueira política da Guarda: listas de "A Guarda Primeiro" rejeitadas pelo tribunal da Guarda.

A piada: nunca vi umas eleições com tantas supostas ilegalidades! Parece-me um bom presságio para os próximos quatro anos de trabalho político no concelho.

Momentos em imagem #16 - a bem do bem comum


A caminho do TO em Vila Real! 
Bom trabalho e muita atenção, malta!

domingo, agosto 25, 2013

Repentes #35 - o recolher obrigatório e os incêndios

Há um dado que salta à vista de quem o quiser ver e que indicia aquilo a que noutros países chamam terrorismo. Aqui pelas nossas latitudes e longitudes parecemos não prestar atenção a isso, mas, depois, temos os canais informativos a falar de ataques terroristas e de triângulo do mal noutras zonas do globo.
Pergunta: é admissível haver (e olho para o exemplo de hoje) 106 incêndios entre a meia-noite e as nove horas da manhã? Este tipo de comportamento não é terrorismo? Se em vez de incêndios fossem bombas, já alguém se preocupava a sério com isto?
Pois bem, não é altura de decretar o recolher obrigatório com carácter de urgência em alguns distritos ou regiões do país? 

sexta-feira, agosto 23, 2013

Pensalamentos #117 - palavras enlutadas de bombeiro

tantas coisas e palavras encaixadas na garganta
tantas lembranças passadas
tantas caras e lágrimas que hoje pressinto lá longe

não, hoje não escrevo nem mais uma palavra.
hoje estou triste e apetece-me ficar quieto e reflectir.
hoje apetece-me pensar se continua a valer a pena.

talvez amanhã, com a mente turvada de insónia
as palavras brotem e alguém as ouça.

chega! chega! chega!

quinta-feira, agosto 22, 2013

Crónica Bombeiros.pt: Basta um gesto simples e desinteressado!

(Foto de Sérgio Cipriano/ Bombeiros.pt)

1. Bastaram duas semanas de calor intenso e de (é minha crença) actividades negligentes e criminosas para que não fossem só as matas e pinhais do país a ficarem incendiadas. Também as línguas e vontades dos altos responsáveis desta coisa dos bombeiros ganharam nova força e começaram a disparar numa única direcção: a subida, rápida e em força, na hierarquia económica e política. Mas, comecemos pelo fim, ou seja, por estas últimas horas de grandes incêndios que, segundo o senhor Ministro da Administração Interna logo depois secundado pelo senhor Presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais (ANBP), se devem a uma não racionalização de meios (???). Ou seja, o problema, para estes senhores, deve-se a uma existência exagerada de meios que não são aplicados com exactidão nos respectivos incêndios. Pelo menos foi também isto que percebi. Pois bem, tentando perceber melhor esta conjugação de palavras governamentais com as palavras profissionais do senhor presidente da ANBP, cheguei à triste conclusão de que a realidade do interior do país é completamente desconhecida por parte destes excelentíssimos senhores. Algum destes senhores terá perguntado aos centros distritais quantas ocorrências de incêndios têm durante um só dia de trabalho? E já algum destes senhores se deu ao trabalho de perceber os meios complementares (máquinas de rasto, por exemplo) que não existem para um combate poder ser mais efectivo? Sim, estou a ler as palavras ditas e trazidas na comunicação social de forma localizada e, se calhar, não coincidentes com as intenções finais destes senhores, mas não me parece que esteja longe daquilo que eles pretendem. Limando um pouco estas constatações, permitam-me que conclua duas coisitas que gostava que estivessem na mente do senhor Ministro quando disse aquilo que disse perante os jornalistas: primeiro, ele estava a falar do desaparecimento do Grupo de Intervenção, Protecção e Socorro (GIPS) enquanto força que duplicava aquilo que já existia e que foi, digamo-lo, um gasto exagerado de dinheiros públicos em nome de uma qualquer vontade política; segundo, ele fez uma comparação (generalização) despropositada entre o elevado número de operacionais e de meios que é possível colocar nos vários Teatros de Operações (TO) do país, sabendo nós que na região de Lisboa podemos no espaço de 1 (uma) hora colocar facilmente num incêndio florestal 300 (trezentos) homens e sabendo nós também que isso é uma missão impossível de concretizar em qualquer outra área do país (talvez após uma dezena de horas de incêndio isso seja possível). As leituras destes dois pontos ficam em aberto para as considerações dos senhores leitores.

2. Outra das questões que por estes dias veio a lume foram os acidentes na frente de incêndio. Comecemos, outra vez, pelo fim. Na região de Penacova deu-se, naquilo que está relatado e que eu pude ler, um pequeno milagre. O senhor Presidente da Liga, no entanto, chamou-lhe “sangue-frio”. Pois bem, parece-me que teremos os dois um pouco de razão, mas (sem estar a ser arrogante) penso que tenho um pouco mais de razão do que ele. Porquê? Porque o caminho que escolheram foi dar ao sítio certo. Elementar, não é? Sim, imaginem só que o caminho que escolheram e que o “sangue-frio” que eles tiveram os levava para um beco sem saída criado pelo incêndio? Sim, senhor presidente da Liga, as nossas decisões contam muito, mas também conta a conjugação de factores que não depende de nós. Em todo o caso, não há ninguém que fique mais feliz com o desfecho do incêndio de Penacova do que eu.

3. Por fim, volto devagar e com um sentimento de solidariedade imenso aos dias tristes de Miranda do Douro e às faces de todos aqueles que deixaram de ter motivos para sorrir. Não tenho a intenção de dar conselhos ou recomendar qualquer paliativo, pois sei que as palavras que possa dizer aos familiares do António Ferreira ou aos seus companheiros não significam muito. Quero, portanto, virar-me para todos aqueles que serão essenciais no futuro próximo e que, a faltarem, farão com que a vida se transforme num sítio terrível para se habitar. Quero, então, virar-me para as famílias de todos os bombeiros e para as comunidades de Miranda do Douro, e pedir-lhes uma coisa muito simples e que não custará qualquer soma ou esforço: estejam presentes e, quando sentirem que é hora, dêem uma mão, um abraço ou uma palavra de conforto a quem, não o pedindo, o precisará.   


Figueira da Foz, 13 de Agosto de 2013-08-13
Daniel António Neto Rocha 

segunda-feira, agosto 19, 2013

Seia: "A Casa da Memória" de portas escancaradas



No dia 14 de Setembro, pelas 21h30, o Teatro do Imaginário vai apresentar na Casa Municipal da Cultura de Seia a sua mais recente peça: "A Casa da Memória". Deixo aqui o aviso para poderem agendar com calma esta ida ao teatro. A entrada custa 4 euros.

""A Casa da Memória" é uma história de encontros e desencontros passada no centro de uma aldeia tipicamente beirã - o Manigoto. Por ali não faltam as brincadeiras de rua, as tropelias das crianças, as galinhas e os burricos, o sino a rebate, e as beatas, os padres, os apaixonados, e todo um imaginário registado desta aldeia do concelho de Pinhel. Humor e emoções, com um final em festa!
(...) Cada ensaio foi uma evolução, uma hora marcada, uma vontade de crescer, um lanche e convívio festivo. (...) Às vezes uma visita inesperada, um recado, os afazeres, a família, os vizinhos, uma cadeira desmanchada, um vidro que se partiu, a lenha para aquecer… e tudo sem agruras, sem querelas, (...) que bom que assim foi. (...) A maioria dos participantes deste espetáculo pisa pela primeira vez um palco; generosamente, entregaram-se às palavras do Daniel Rocha, que para este grupo escreveu precisamente a obra A Casa da Memória, às experiências que fui propondo sobre elas, e, passo a passo, foi um desabrochar. Ei-las hoje, aqui, convosco, para que estas histórias possam (...) ser vossas, para que este passado possa ser relembrado, e para que esta identidade se crave fortemente no solo de Manigoto. Pudesse todo um país crescer assim.
Alexandre Sampaio in Folha de sala
Ficha técnica:
ENCENAÇÃO E IMAGEM de Alexandre Sampaio, a partir da obra "A Casa da Memória" de Daniel António Neto Rocha. INTERPRETAÇÃO de Ana Mesquita, Bernardo Cerdeira, Daniel Ferreira, Diogo Cerdeira, Diogo Paulino, Fernanda Fernandes, José Ferreira, Maria Gonçalves, Maria Luísa Mesquita, e Sofia Paulino. DESENHO e OPERAÇÃO DE LUZ de António Freixo. APOIO CENOGRÁFICO de Abel Santos. ADEREÇOS de Alex Teixeira, António Guerra, Kevin dos Santos, e Manuel Marques. MÚSICA de Bach (allegro assai do concerto nº2 para violino, e adagio do concerto para duas harpas e cordas), e Mozart (adagio do concerto nº3 para violino, e allegro moderato do concerto nº1 para violino). PRODUÇÃO do Grupo de Amigos do Manigoto. APOIOS da Câmara Municipal de Pinhel, Falcão E.M., Junta de Freguesia de Manigoto, IPDJ, e INATEL."


Pensalamentos #116

olhar o mundo de frente
virando-lhe as costas

Acordos na Guarda? #10 - tribunais e sondagens

Antes que comecem a tratar-me mal, claro que isto que vou escrever é quase tudo ironia, e da grossa! A decisão dos tribunais em impedir a candidatura de Álvaro Amaro à Guarda era esperada (pelo menos por quem ainda vai acreditando que a lei é para respeitar) e não trouxe nada de novo para a campanha. Agora é esperar pelos recursos infindáveis e, lá para fins das férias, teremos o candidato do PSD e do CDS-PP à Câmara da Guarda pronto para os votos. A piada, no entanto, está nos golpes palacianos que se preparam atrás da decisão do tribunal e que podem provocar mais uma cisão anunciada (já que o governo não caiu e a minha visão não se cumpriu...). Mas já lá vamos!
Para preparar ainda de melhor forma a reentrada política, a sondagem que todos apregoam veio trazer algo impossível aos olhos de todos como uma "possibilidade possibilitiva" (como diria o Rei Juliano): Álvaro Amaro pode mesmo ganhar a Câmara da Guarda e acabar com a predominância do reinado rosa. Claro que muitas voltas dará o mundo até ao dia das eleições e, ironia das ironias, o putativo vencedor é o tipo que está em vias de "sair na próxima curva". Ou seja, a secretaria pode impedir o vencedor de se tornar vencedor!
Mais engraçado ainda é o facto de, num reino cadavérico da Guarda onde pululam os reis de outrora e que podem voltar às rédeas sombrias da cidade com um fulgor extremo, uma pergunta ter surgido com força inesperada: será que Manuel Rodrigues ainda pode ser o candidato em vez de Álvaro Amaro? 
É óbvio que quase tudo o que aqui digo é ficcional e que a interrogação é pura diversão mental para quem conhece o jogo escondido com rabo de fora, mas que o alarme soou em alguns lares de família muito conceituados... lá isso soou!
Continua a festarola!   

sexta-feira, agosto 16, 2013

Repentes #34 - É a hora de acabar com esta morte de bombeiros

Penso que todos os que vão lendo este blogue já perceberam que eu perdi um Irmão num incêndio. Penso, também, que todos os que possam ler este texto vão ter a oportunidade de pensar duas vezes naquilo que vou escrever e que estarão a ler, pois não vou ser nada meigo com a atitude hipócrita e desonesta que nos dias de hoje os "nossos responsáveis" vão demonstrando.
Pois bem, estou farto de gente que vem chorar sobre o túmulo aqueles que vão embora! Estou farto de Martas e Caldeiras e Curtos e tantos outros que pensam que o seu lirismo enternecedor com quem já morreu pode fazer alguma coisa para além de dar uma imagem do ar angelical de lobos que se alimentam do suor de outros! Estou farto desta gente que só se preocupa em trepar politicamente e que se aproveita do corpo ensanguentado dos que vão caindo para continuarem a afiar as garras e a tirar dividendos disso! Estou farto de pessoas que discutem ardentemente o valor do seguro dos bombeiros e se esquecem de alimentar com ferocidade as discussões sobre a segurança dos homens no combate! Estou farto destes animais que vivem felizes com o sangue dos outros a correr debaixo dos seus pés!
Pergunto eu: o que fizeram os senhores que dão a voz pelos bombeiros para impedir este fim que aconteceu em Miranda do Douro ou na Covilhã? O que têm feito estes senhores "tão tristes e cantadores dos actos dos que caíram" para impedir que mais homens venham a cair no futuro próximo?
Infelizmente para nós, bombeiros, andarão estes senhores mais preocupados com os outros cargos a que chegaram depois de serem membros da Liga ou de outras entidades.
Pois é hora de estes senhores perderem a voz! É hora de estes trastes que pensam que eu sofro menos por me estarem a dizer que quem partiu foi um herói ou um homem exemplar perceberem que nós, familiares, queremos que isto não volte a acontecer! É hora da comunicação social fechar as portas a estes figurões! Por favor, calem o Presidente da Liga e impeçam que os seus "roncos" sejam ouvidos como palavras dos bombeiros! 

quarta-feira, agosto 14, 2013

Repentes #33 - a racionalização do senhor Ministro

(Dados oficiais - recolhidos de 26 de Julho até 13 de Agosto)

O senhor Ministro da Administração Interna veio ontem pedir a racionalização de meios no combate aos vários incêndios que lavram e lavraram no país. Ele quer que por cada incêndio sejam apenas colocados no terreno os meios necessários para o combater com eficiência. Nada mais certo, caro Macedo, se tudo se tratasse de um qualquer videojogo ou de poker
Agora, eu também queria ganhar o euromilhões mas não consigo acertar com a chave vencedora! É que é difícil conseguir acertar em todas as conjugações sem gastar muito e muito dinheiro (já me disseram que é possível acertar, se cobrir todas as conjugações de chaves, mas isso custa mais do que qualquer prémio final).
Por isso, talvez o melhor seja mesmo fazer aquilo que o senhor Ministro também disse e que consiste em fazer junto dos proprietários uma campanha de sensibilização para prevenir comportamentos de risco. É que é um bocadinho estranho ver três ou quatro focos de incêndio a surgir num espaço de cerca de 2 (dois) quilómetros. 
Caso precise de ideias, senhor Ministro, estou ao seu dispor para ajudar!

segunda-feira, agosto 12, 2013

Momentos em imagem #15 - o "benjamim" da casa inicial


É óbvio que há alguma "baba" envolvida, mas o que existe mais é confiança no trabalho que este meu pequeno irmão conseguiu ter até hoje. Teimosia, obstinação, alguma obsessão e muita confiança são características que lhe não faltam para levar esta sua "água até ao moinho", mas tudo com competência e capacidade evolutiva fora do normal. Desde logo, dedica-se a aprender para proteger os "outros" e, com certeza, irá no futuro ajudar ainda mais a tornar esta sociedade bem mais segura para todos. 
Sim, sou um homem orgulhoso do irmão mas também do profissional! Esta imagem é da pequena reportagem que foi efectuada sobre a tese de mestrado do Hugo.