quinta-feira, agosto 31, 2017

07. Crónicas Silenciosas – E depois do depois?



Todos, não os seres vivos na sua totalidade, mas todos nós, homens e mulheres deste mundo, temos como desígnio olhar para quem nos olha e imaginar o que pensa aquele ou aquela que nos olha. Não será, no completo do grupo olhado, um grande problema ou uma grande satisfação, mas tendemos, seres umbilicais que somos, a querer ser atenção e foco. Muito ou pouco desejosos, aspiramos a que pensem em nós e gostem daquilo que fazemos. É humanamente natural e, creio-o, desejável que assim seja.

Também eu tenho este vício de gostar de ser olhado e discutido, para o bem o para o mal, dentro da cabeça daqueles que me rodeiam ou que me olham. Penso até que, loucura minha que espero possa não ser lida por psicanalistas ou entes próximos destes, é salutar para quem olha fazer o exercício de apreciação daquele para o qual olha com admiração, desejo, pavor ou ódio. Claro está que no "objecto vivo e pensante" admirado podem estar todas as classes sociais, todos os feios, todas as beldades, todas as profissões e até quem passa pelo mundo como respiração impensada e automática. Tudo o que é vivo e mexe é digno de ser apreciado, diz o filósofo Rocha D..

E depois? Sim, e depois do depois? Aí, como é ou como será o registo do olhar, o tom da lembrança ou o ritmo da respiração? Sim (e sorrio), como será quando eu for simples matéria orgânica? Qual será o olhar do vazio antes imagem? Qual será a lembrança de gestos, de atitudes e de existência?

Interrogo-me sem a necessidade de que alguém me responda, para além de mim próprio. o dia de depois do depois, o dia de depois da existência material, o dia de depois da vida...
Alguém gastará dois segundos do seu tempo a lembrar aquele amigo, inimigo, conhecido, desconhecido, vizinho, ser que passou por ali?

O Nuno Costa Santos lembrava há dias um amigo que morreu e lembrava-o sem floreados ou excesso de dramatismo. Lembrava-o como o amigo que foi e se mantém para si presente.

E eu? Terei quem escreva simplesmente que um dia existi? 
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